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Arquipelago de Origem:
Madeira (Região Autónoma)
Data da Peça:
2019-07-10
Data de Publicação:
18/03/2022
Autor:
João França / Nelson Veríssimo
Chegada ao Arquipélago:
2022-03-18
Proprietário da Peça:
IA/Nelson Veríssimo
Proprietário da Imagem:
IA/Nelson Veríssimo
Autor da Imagem:
IA/Nelson Veríssimo
Uma família madeirense, João França, Funchal, Imprensa Académica, junho de 2019, ilha da Madeira

Categorias
    Descrição
    João França, Uma família madeirense, Funchal, Imprensa Académica, junho de 2019, ilha da Madeira
    (1908-1996)

    João França (1908-1996) escreveu Uma família madeirense no início da década de 80 do século XX. Contudo, só em 2005 foi este romance editado pela Câmara Municipal de Santa Cruz, com um Preâmbulo de Irene Lucília Andrade. No mês passado, veio a lume a reedição de Uma família madeirense através do original dactilografado, com a chancela da Imprensa Académica e edição literária de Thierry Proença dos Santos, que assina também uma esclarecedora Nota de Apresentação. Este é o n.º 4 da Colecção Ilustres Desconhecidos, planeada com o objectivo de relembrar autores e obras do corpus literário madeirense.
    A nova edição justifica-se não somente pelo interesse literário da obra, mas também por fixar o texto de acordo com o dactiloscrito depositado no Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira. Com efeito, conforme verificou e demonstrou Thierry Proença dos Santos, a edição de 2005 não respeitou o original. Pode-se, por conseguinte, dizer que só agora veio verdadeiramente a público este romance de João França, porquanto está conforme a vontade do autor. A narrativa desenrola-se entre 1936 e 1975, no Caniço, freguesia então predominantemente agrícola e onde também se veraneava nas casas das fazendas.
    Vestido de amor ao chão caniceiro, regalo sempre fora a vilegiatura da família Oliveira na sua casa de campo, isso após dez ou onze meses de canseiras, em cada ano, no lar e nos escritórios no Funchal. (p. 34)
    Bonifácio Vaz de Oliveira é a personagem central. Representa o madeirense apegado aos pergaminhos da sua linhagem e aos valores tradicionais (por companhia tinha sempre a Bíblia e o livro da família Oliveira), salazarista, defensor ferrenho do «Estado Novo», autoritário e guardião da moral conservadora. Nada receptivo às mudanças políticas e sociais, repudiava os ideais da Revolução do 25 de Abril, que o surpreendeu aos 80 anos. Tão-pouco compreendia as manifestações de um povo que conquistara a Liberdade, como também não aceitara a implantação da República, a Revolta da Madeira (1931) nem a denominada Revolta do Leite (1936).
    Quando daquela arruaça por causa dos lacticínios, lembra-se ele de ter dito estarem os homens de bem perante o desabar da instituição cristã do respeito humano. Afinal, via-o agora, era aquilo um quase nada comparado com tudo quanto para aí vai. Então, o sossego voltara ao seu lugar normal. E agora? Como iria ser? Que fariam os bolchevistas, com os seus gritos de liberdade? (p. 142).
    No final da vida, o patriarca da família Oliveira era tolerado e respeitado, mas quase todos os seus parentes próximos discordavam das suas obstinadas decisões e rígidas atitudes. Até Lúcia, a filha submissa, a quem o pai impusera um marido, tinha plena consciência do mal que o seu pai lhe fizera. Ainda que admitisse ter ele agido na «melhor das intenções», não deixava de considerar que «o pai ignorava a firmeza indestrutível de certos sentimentos do coração de uma mulher». Suscitava-lhe, por isso, inveja a liberdade dos sobrinhos.
    A morte da personagem principal determina o termo da narrativa. Representa também o fim do poder patriarcal e de uma sociedade arcaica. O procedimento de Marta, a sua neta, ao colocar o livro de família, embrulhado numa toalha de linho, debaixo da cabeça do avô defunto, para melhorar a postura do corpo dentro da urna, detém grande significado no contexto da narrativa. Doravante, a nova geração dos Oliveiras não se guiaria pelos padrões dos antepassados. Como sublinhou Irene Lucília Andrade, «todo o peso do passado responsável pela tragédia da família é destruído num acto simbólico» (p. 26).
    Sem assumir a dimensão de romance histórico, Uma família madeirense contempla e analisa factos significativos do passado desta ilha no século XX, através da descrição de comportamentos e da construção de diálogos. Todavia, não se pode concluir que o escritor se identificava com as personagens que concebeu. Apenas pretendeu recriar situações cronologicamente verosímeis. Do que conheço de João França, posso afirmar que, politicamente, o autor do romance não tinha quaisquer afinidades com o comendador Bonifácio Vaz de Oliveira. Mas, por certo, conhecera personalidades, que assim pensavam e agiam no «Estado Novo» e nos tempos do PREC (Processo Revolucionário em Curso) e se tornaram fontes para o desenho da personagem principal deste romance.
    Secundando o editor literário de Uma família madeirense, considero que este romance tem lugar de mérito no âmbito da ficção ambientada na Madeira.
    FRANÇA, João – Uma família madeirense. Thierry Proença dos Santos, edição literária e nota de apresentação. Irene Lucília Andrade, preâmbulo. Funchal: Imprensa Académica, 2019. ISBN 978-989-54361-3-2.
    Nelson Veríssimo, Funchal Notícias. 10 Julho 2019