Solar dos Freitas da Silva, morgados da Madalena do Mar, reconstrução de 1800 (c.), Madalena do Mar, ilha da Madeira.
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Descrição
Solar dos Freitas da Silva, morgados da Madalena do Mar.
Reconstrução de 1800 (c.)
Fotografia de Rui Marote, 2025.
Rua do IV Centenário, Madalena do Mar, ilha da Madeira.
No varandim da sacada central da fachada do Solar dos Freitas, virada para a Rua do IV Centenário, na Madalena do Mar, foi afixado, há bastante tempo, um cartaz, escrito em português, inglês e polaco, com a seguinte mensagem: «“Casa do Rei” – nesta casa viveu incógnito o Rei Ladislau III desaparecido em Varna e conhecido na Madeira como Henrique Alemão e aqui nasceu o Grande Descobridor da América, Cristóvão Colon (Colombo), cerca de 1455 batizado Segismundo Henriques.» Este solar rural, que ostenta um brasão com as armas dos Freitas, é propriedade da diocese do Funchal e está classificado como bem do Património Cultural edificado da Região Autónoma da Madeira, com Valor Local, pela Resolução do Governo Regional, n.º 76/95 (JORAM, 1.ª série, n.º 25, de 3 fev. 1995). Julgo que o proprietário do edifício não afixou nem autorizou aquele embuste. De qualquer forma, deve ser do conhecimento do pároco, porque a igreja da Madalena do Mar situa-se na vizinhança da Casa dos Freitas, e também da Junta de Freguesia local.
Um cartaz, num edifício classificado, serve para informar, não para asneirar. Qualquer pessoa, minimamente informada, sabe ser impossível que o rei Ladislau III, da Polónia (1424-1444?), tivesse vivido numa casa construída mais de três séculos depois da sua morte. O mesmo se pode dizer para Cristóvão Colombo (1451-1506). Por isso, e também por outros motivos, são incorretas as expressões: «nesta casa viveu incógnito o Rei Ladislau III» e «aqui nasceu o Grande Descobridor da América». É certo ter existido um povoador chamado Henrique Alemão, cavaleiro de Santa Catarina, que recebeu de João Gonçalves Zarco uma terra de sesmaria na Ribeira da Madalena, doação que veio a ser confirmada pelo Infante D. Henrique em 1457. Nessa época, «alemão» referia-se a um indivíduo natural de Além-Reno. Henrique Alemão casou com Senhorinha Anes e teve um filho (Segismundo, que morreu no mar, numa viagem de Lisboa para a Madeira) e uma filha (Bárbara, que casou com Afonso Anes). Depois de viúva, Senhorinha casou com João Rodrigues de Freitas, natural de Lagos. No século XVIII, o genealogista Henrique Henriques de Noronha escreveu que se dizia ser Henrique Alemão um príncipe da Polónia, que se perdeu na batalha de Varna, quando o sultão otomano Murade II derrotou Ladislau III, rei da Polónia e da Hungria. Assim nasceu a lenda de um rei polaco que teria vivido na Madalena do Mar. Quanto a Colombo ter nascido nesta localidade, é hipótese de Manuel da Silva Rosa e Eric Steele (2006). Segundo estes autores, Colombo nasceu em Portugal, e não em Génova, descendia de uma família nobre e poderá ser Segismundo Henriques, tendo ocorrido deliberado encobrimento da sua identidade. A origem do descobridor do continente americano constitui um enigma. Judeu, catalão, maiorquino, valenciano, galego, andaluz, castelhano, basco, genovês, português – várias são as teorias sobre a naturalidade do famoso navegador. Aliás, Manuel da Silva Rosa já havia apresentado outras identidades para Colombo, além de Segismundo Henriques, filho de Henrique Alemão e de sua esposa, Senhorinha Anes. Sobre o Colombo português, matéria discutida, pelo menos, desde 1915, e que mereceu também a atenção do porto-santense Manuel Gregório Pestana Júnior (1886-1969), por enquanto, nada se pode concluir, com certeza. Uma investigação de 22 anos, com pequenas amostras de restos mortais enterrados na Catedral de Sevilha, último local onde repousa Colombo, concluiu apenas que o navegador nasceu na Europa Ocidental, conforme foi divulgado no documentário intitulado «DNA de Colombo: a verdadeira origem» (TVE, 12-10-2024).
O cartaz abusivo deve ser retirado, o que se faz com facilidade. Mais dispendiosa é a recuperação da Casa dos Freitas da Madalena. A Diocese do Funchal deverá dar utilidade àquele edifício, há anos abandonado e que já beneficiou de apoio do Governo Regional. Não estou a sugerir, à Igreja Católica, a solução do alojamento local, como na Ponta do Sol com a casa paroquial. Mas, sim, que ponha em prática algumas ações caridosas recomendadas nas «Obras de Misericórdia».
Nelson Veríssimo, 24 set. 2025