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Arquipelago de Origem:
Funchal
Data da Peça:
1881-00-00
Data de Publicação:
10/09/2020
Autor:
Ciríaco de Brito Nóbrega (atr.)
Chegada ao Arquipélago:
2020-09-10
Proprietário da Peça:
BM Funchal
Proprietário da Imagem:
Nelson Veríssimo / BM Funchal
Autor da Imagem:
Nelson Veríssimo
Os Mistérios do Funchal, primeira parte, A Herança Maldita, Ciríaco de Brito Nóbrega (atr.), Funchal, tipografia do Diário da Madeira, 1881, ilha da Madeira

Categorias
    Descrição
    Ciríaco de Brito Nóbrega (atr.), Os Mistérios do Funchal, primeira parte, A Herança Maldicta, Funchal, tipografia do Diário da Madeira, 1881, ilha da Madeira
    Ciríaco de Brito Nóbrega (1856-1928).
    Exemplar da Biblioteca Municipal do Funchal, ilha da Madeira

    A primeira edição não revelava o autor. Na introdução, intitulada «Duas palavras», esclarecia-se que se tratava de uma obra que beneficiara da escrita de três mãos: «Três homens unidos pelo mesmo pensamento e compenetrados do mesmo fim colaboraram neste romance.» No entanto, a leitura do romance não sugeria escrita partilhada. Aquela afirmação tentava, por certo, dissimular a verdadeira autoria e enquadrava-se numa estratégia de adensar a natureza «misteriosa» da obra.
    Uma recensão literária ao primeiro volume de Os Mistérios do Funchal, publicada no Diário de Notícias, do Funchal, em 28 de Agosto de 1881, provavelmente escrita por Alfredo César de Oliveira (1840-1908), revelou que Ciríaco de Brito Nóbrega (1856-1928) era o autor do romance recém-editado.
    A preocupação do fundador do Diário de Notícias pode explicar-se pelo facto de este jornal ter também publicado um folhetim intitulado Mistérios do Funchal, de Março de 1877 até Abril do ano seguinte, que não chegou a ficar concluído, mas cuja edição em livro havia sido anunciada. Acrescente-se que, de acordo com os autores do Elucidário Madeirense, esse folhetim era da autoria do cónego Alfredo César de Oliveira. Não se absteve o articulista do Diário de Notícias de tecer alguns juízos críticos sobre a obra em apreço, revelando ter sido escrita em oito dias.
    Por sua vez, O independente: semanário democrático, dirigido por F. Pinto Coelho (1850-1916), criticou a publicação de Os Mistérios do Funchal: «Mas, segundo nos parece, o referido livro refere-se a factos, que segundo a nossa humilde opinião, só deveriam ser publicados um século depois de terem sido praticados. Nem todas as verdades se dizem e muito menos quando elas desacatam a memória dos que já não existem, e podem ainda ofender as famílias dos que lhe sobrevivem.» (6-08-1881, p. 3)
    Nas «Duas palavras», que antecedem o romance, o autor fez questão de sugerir que se baseara em factos reais, que havia observado ou deles tivera informação em apontamentos facultados por amigos. No entanto, as raras pistas da intriga, que conduziram a uma investigação histórica, revelaram-se infrutíferas. Tudo leva a crer, portanto, que não se trata de factos reais, pelo menos na sua totalidade. Haverá, por certo, personagens inspiradas no quotidiano funchalense, como o temido Castanheta, que parecia «o demónio em carne e osso» (Os Réprobos, cap. II). Uma alusão a este famigerado marginal surge no folhetim de Faustino Brazão, publicado no Diário de Notícias, de 1 de março de 1877, sob a epígrafe «Respostas a pertinaz curioso: o Filho da Velha». O «Filho da Velha», além de contrabandista, famoso na pancada e na pinga, era, para o folhetinista, «um digno émulo de Castanheta e outros quejandos». Os Mistérios do Funchal, romance não publicado previamente sob a forma de folhetim na imprensa periódica, como era habitual em narrativas literárias desta categoria, desenvolve-se à volta de Margarida, uma jovem de humilde condição, que se enamorou de um padre católico, mas não consumou esse amor. Forçada, pela adversidade, a casar-se com um abastado proprietário, vem a ser vítima do cunhado que tudo fez para impedir Margarida de herdar a fortuna do seu marido. Depois de uma estada no estrangeiro e diversas contrariedades, como a doença do filho e a traição da sua companheira, o cunhado pretendeu redimir-se do mal que fizera a Margarida, planeando a devolução da herança a que ela tinha direito. Neste seu intento, contou com a oposição desesperada do seu filho.
    O romance revela uma estrutura narrativa da denominada «literatura de Mistérios», que proliferou na segunda metade do século XIX e obteve grande popularidade. Abordando Os Mistérios de Paris, de Eugène Sue (1804-1857), Umberto Eco (1932-2016), salienta que «estão cheios de pequenos dramas iniciados, parcialmente resolvidos, abandonados para seguir desvios do arco narrativo maior, como se a história fosse uma grande árvore» (O Super-Homem das Massas, 2016, p. 59). Ainda que menos sensacional do que a obra de Sue, vislumbram-se estas características em Os Mistérios do Funchal.

    Ciríaco de Brito Nóbrega (1856-1928)
    Filho de Roberto Constantino de Nóbrega e Matilde Leocádia de Brito Nóbrega, nasceu na freguesia de São Pedro, Funchal, em 15 de março de 1856. Faleceu na sua residência, na Rua do Favila, da cidade do Funchal, em 1 de abril de 1928. Ao noticiar a sua morte, o Diário de Notícias delineou o seu retrato: «A figura de Brito Nóbrega era inconfundível: baixo, magro, impressionantemente magro, dependurado, quase incessantemente, num charuto, com um andar em baloiço, conhecia-se a distância.» (3-04-1928)
    Exerceu funções profissionais na Repartição de Finanças do distrito do Funchal, como primeiro-oficial, mas foi o jornalismo a sua atividade predilecta. Segundo O Jornal, Ciríaco de Brito Nóbrega «foi um cidadão a quem a defesa dos interesses desta ilha muito deve. Jornalista de largos recursos, a sua acção manifestou-se em artigos de propaganda, possuindo, além duma clara noção dos vários assuntos que versou com inteligência, uma memória apreciável que lhe permitia reproduzir os acontecimentos com uma precisão digna de registo.» (3-04-1928)
    Os seus primeiros artigos na imprensa madeirense surgiram n’ A Aurora Liberal em 1875-76. Em Setembro de 1881, era proprietário do Diário da Madeira, conjuntamente com José A. P. Ramalho. Colaborou em diversos jornais, sendo redactor principal do Diário de Notícias, da Madeira, entre 28 de Abril de 1907 e 25 de Março de 1927. Já na penúltima década do século anterior havia sido redactor deste periódico durante quase três meses, mas saiu por divergências editoriais, tendo fundado, em 1884, o Correio da Manhã, do qual saiu o primeiro número em 31 de Agosto e o último em 14 de Março de 1886.
    Para além de Os Mistérios do Funchal, publicou, sob o pseudónimo Alberto Didot, Um crime célebre (Funchal: Tip. Popular, 1883), que saíra como folhetim no Diário da Madeira, em 1881. Com Óscar Leal é co-autor de Um marinheiro do século XV: romance histórico sobre a descoberta da Índia (Funchal: Tip. Esperança, 1898), por ocasião das celebrações do Quarto Centenário do Descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia. No ano de 1901, veio a lume o seu romance, O perdão do marido: Primeira parte: Um drama íntimo (Funchal: Tip. Esperança), publicado como folhetim do Diário de Notícias do Funchal, a partir de 26 de Outubro de 1900. Editou ainda uma reportagem sobre A visita de Suas Magestades os Reis de Portugal ao Arquipélago Madeirense (Funchal: Tip. Esperança, 1901).
    Ciríaco de Brito Nóbrega é um escritor pioneiro das narrativas ficcionais de crime, da literatura madeirense.
    A herança
    No romance Os Mistérios do Funchal, a disputa de uma herança constitui tema recorrente ou leitmotiv da narrativa. Com base neste topos, a apresentação do livro, que se realizará no dia 29 de Novembro, pelas 18:00, no auditório da Universidade da Madeira, no antigo Colégio dos Jesuítas, será pretexto para uma tertúlia à volta do tema: O valor da herança: (re)pensar a sociedade à luz da dinâmica da nova ordem mundial. Serão convidados o padre José Luís Rodrigues, o arquitecto Rui Campos Matos, o advogado Brício Martins Araújo, o médico João Pedro Vieira e o professor da UMa, Thierry Proença dos Santos, autor do posfácio da reedição de Os Mistérios do Funchal.
    NÓBREGA, Ciríaco de Brito – Os mistérios do Funchal. Nelson Veríssimo, edição literária e nota de apresentação. Thierry Proença dos Santos, posfácio. Funchal: Imprensa Académica, 2018. ISBN 978-989-54002-7-0. PVP: 15,70€.
    Nelson Veríssimo, Passos na Calçada, Funchal Notícias. 28 novembro 2018