Image
Arquipelago de Origem:
Lisboa (cidade)
Data da Peça:
1961-05-00
Data de Publicação:
21/12/2020
Autor:
João Abel Manta
Chegada ao Arquipélago:
2020-12-21
Proprietário da Peça:
Hemeroteca digital de Lisboa
Proprietário da Imagem:
Hemeroteca digital de Lisboa
Autor da Imagem:
João Abel Manta
O Chefe de Repartição, ilustração de João Abel Manta para o Pequeno Mostruário de Uniformes da Noite «Midnight Snacks» e Literatura de Chevet do Almanaque de maio 1961, Lisboa, Joaquim Figueiredo Magalhães, Portugal.

Categorias
    Descrição
    O Chefe de Repartição.
    Galão e torradas; Diário de Governo.
    Ilustração de João Abel Manta (Lisboa, 1928) para o Pequeno Mostruário de Uniformes da Noite «Midnight Snacks» e Literatura de Chevet,
    in Almanaque maio 1961, design geral de Sebastião Rodrigues (1929-1997), textos de José Cardoso Pires (1925-1998) e outros, edição de Joaquim Figueiredo Magalhães (1916-2008), Lisboa, maio de 1961, p. 41, Portugal.

    Foi o herdeiro das resmas de Almanaques, Almanachs e Almanaks que fizeram as delícias de século e meio de burgueses sedentos de cultura em comprimidos. A estrutura era a mesma, sortido fino e grosso de calendário e cultura geral, coisa engendrada pelo editor Joaquim Figueiredo Magalhães (1916-2008), fundador da Ulisseia (1948), do design Sebastião Rodrigues (1929-1997), do escritor José Cardoso Pires (1925-1998) e mais uma mão cheia de venenosos escribas com muitas contas a ajustar com o seu cantinho à beira-mar. Este Almanaque tinha a mão do designer Sebastião Rodrigues, tecendo a sua obra prima de portugalidade gráfica (e depois da Gulbenkian) e, a páginas tantas, o cronista fatal para aqueles cinzentos anos de um regime que, se abria mão aos prazeres do gazcidla e do frigorífico, amodorrava as consciências numa amnésia de naus e armaduras, censurando zelosamente todo o papel impresso e por imprimir. João Abel Manta (Lisboa, 1928) chega ao Almanaque em dezembro de 1960. E acabam logo ali os cartoons avulsos que eram tique cediço de outros Almanachs. E começa gloriosa cavalgada ilustrando o cadáver, já putrefacto nos anos sessenta, do Estado Novo, o malfadado Reino dos Pachecos, maquinação em código deste Almanaque. Foi a paródia aos epicenos (definição: nomes dos animais que designam indiferentemente o macho ou a fêmea) inventariando as fases de vida de um típico casal com o seu cortejo de ilusões e secretas infidelidades. Foi a passerelle de uniformes urbanos de variegada fauna, os artistas reumáticos da Sociedade Nacional de Belas Artes, os intelectuais caixa de óculos que queriam salvar o mundo à mesa do café, os marialvas, toureiros e pintas de toda a pinta, que escondiam as mulheres em casa para se babarem de gozo na rua. Foram as mazelas escondidas da Lisboa capital, a precisar de novo terramoto. Foi, enfim, o retrato crudelíssimo de uma sociedade de tristes à espera de um longínquo Abril. O traço limpo e esquemático de JAM, parente rico do seu labor de arquiteto, haveria de se tornar mais nodoso e necrófilo ao longo dos sessentas e setentas, até à obra primíssima Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar, o corpus-mortem mais empenhado da miséria lusa, se descontarmos o bisturi de outro médico legista um pouco mais desbocado, o famigerado José Vilhena. Caro leitor, Não lhe parece que o Reino dos Pachecos está de volta, ou mais precisamente, nunca acabou? (Almanaque Silva, 25 out. 2012)