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Arquipelago de Origem:
Ponta de São Lourenço
Data da Peça:
1990-00-00
Data de Publicação:
13/08/2026
Autor:
GR
Chegada ao Arquipélago:
2026-08-15
Proprietário da Peça:
GR
Proprietário da Imagem:
SRTC
Autor da Imagem:
SRTC
Núcleo dos Dragoeiros da Ponta de São Lourenço, 1990 (c.) e seguintes, 2025, ilha da Madeira

Categorias
    Descrição

    Núcleo dos Dragoeiros da Ponta de São Lourenço
    Campanha de 1990 (c.) e seguintes.
    Fotografia de 2025.
    Ponta de São Lourenço, Caniçal, ilha da Madeira.


    O dragoeiro, Dracaena draco (L.) L., é uma planta da família Asparagaceae, de crescimento lento e longa vida, específica da Macaronésia, ou seja, dos arquipélagos dos Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde, tal como, pontualmente, também da costa continental de Marrocos, onde cresce naturalmente (e está bem-adaptada) em zonas semiáridas e rochosas, incluindo montanhas rochosas e arribas costeiras. É uma planta perenifólia e não uma árvore, pois que os caules simples não se tornam lenhosos, ou seja, o tronco não tem o crescimento por anéis anuais como nas árvores, com ramos partindo sempre da mesma altura, podendo atingir 15 a 20 metros de altura, com a copa em forma de umbela. As folhas são glabras, estreitas e longas, de cor verde acinzentada. As flores, brancas, agrupadas em grandes inflorescências surgem entre agosto e outubro. As suas bagas são globosas, carnudas, vistosas, de cor amarelo alaranjada. O seu lento crescimento de três décadas até atingir a idade adulta, compensa o dragoeiro com uma vida longa, que se pensa que possa chegar aos oito a nove centenas de anos, como os exemplares que chegaram até nós na ilha de Tenerife, nas Canárias. Sensivelmente a cada 15 anos e após a floração, que só começa por volta dos 10 a 15 anos de idade, o seu caule bifurca-se. Assim, ao longo do tempo, cada ramo dá lugar a dois, que por sua vez ramificam em quatro e assim sucessivamente, sendo pela contagem das bifurcações que se estima a idade de um dragoeiro. Devido a essas ramificações, os dragoeiros mais velhos têm copas mais densas e amplas que os novos.
    Nos inícios do povoamento da Madeira, como regista Luís de Cadamosto (1432-1488), que aqui esteve em 1455, já se extraía do dragoeiro, por meio de incisões, uma goma a que chamavam sangue-drago (Navegações, ed. 1867, pp. 7-8), apreciada na Europa pelas suas qualidades medicinais e pela fama de possuir também propriedades místicas, informação também vinculada pelo cónego Jerónimo Dias Leite (1540-1598) (Ed. 2016, p. 44). Essa goma era ainda utilizada na tinturaria como corante de tecidos e para a confeção de vernizes utilizados na preparação das madeiras para instrumentos musicais, mas a raridade destas plantas levou ao abandono dessa atividade. Nesses primeiros dois séculos, teria sido muito comum no Porto Santo, onde, segundo o doutor Gaspar Frutuoso (c. 1522-1581), faziam-se com os seus troncos gamelas capazes de um moio de trigo e barcos em que podiam pescar 6 a 7 homens (Ed., 1968, p. 62), o que só entendemos pela falta de outro material, pois que esse, pouco denso e poroso, seria muito pouco apropriado para isso. Hoje, os exemplares endémicos encontram-se extintos, mas fazendo parte do brasão de armas da antiga vila Baleira do Porto Santo, nos meados do séc. XX foram replantados a partir dos viveiros da Madeira da antiga Junta Geral.
    O Elucidário Madeirense, pela mão de Carlos Azevedo de Meneses (1863-1928), fornece uma série de informações sobre alguns dragoeiros existentes em várias quintas da encosta do Funchal e muito admirados por visitantes estrangeiros nos primeiros anos do séc. XX, mas depois quase todos mandados arrancar por novos proprietários. Teriam ficado, entretanto, muito poucos exemplares endémicos, registando um no Garajau e outro no Caniço, mas que não chegaram aos nossos dias. Parece ter subsistido somente um endémico na falésia da Ribeira Brava, de um conjunto, em 2010, de 2 exemplares adultos e um outro mais novo, mas destruído pela aluvião de 20 de fevereiro daquele ano, só subsistindo o exemplar mais novo. O magnífico conjunto da Neves, em São Gonçalo, já citado por 1920 (Elucidário, ed. 1940, vol. I, p. 380), no entanto, não será endémico e teria sido um antigo viveiro destas plantas, algumas mais que centenárias e, muito provavelmente, transplantadas de outros locais. O maior exemplar existente na Madeira teria sido o do no sítio da Pontinha de Cima, em Machico e que foi destruído por uma tempestade em 1843. Quando pereceu tinha quase 16 metros de altura.
    A referência iconográfica europeia mais antiga de um dragoeiro deve ser a gravura da Fuga para o Egipto de Martin Schongauer (1445/50-1491), de 1470, mas com tiragens nos anos seguintes, presente em várias coleções e reproduzida em catálogos. Poucos anos depois temos a representação do retábulo do Jardim das Delícias, hoje no Museu do Prado, que Jheronimus van Aken, ou Hieronymus Bosch (1450-1516) teria executado numa fase já muito madura das suas ideias e estilo de pintar, talvez por volta de 1500. Este pormenor do trabalho tem levado a críticos, como o açoriano Emanuel Félix (1936-2004), em 1988 e João Lizardo, na Madeira, em 1996, a alvitrarem um contacto muito próximo de Bosch com a feitoria portuguesa de Antuérpia, para poder introduzir ali um dragoeiro, só existente na área da Macaronésia. Nessa sequência se editaram ao longo dos sécs. XVII e XVIII, especialmente em Londres, inúmeras gravuras de dragoeiros, com as descrições das propriedades medicinais do sangue de drago.  Nesse conjunto existe uma gravura com um mapa da Madeira (Island of Madera) e um dragoeiro (Dragon Tree), com a representação da incisão e do pequeno pote para recolher o sangue de drago. A edição foi de Thomas Astlay (c. 1690-1759), Five Collections of Voyages, 1745 - 47, Londres, vol. I, 1752, embora a gravura de G. Child tenha a indicação de ter sido executada em 1745. Nos anos seguintes o interesse foi para os exemplares das Canárias, efetivamente os mais antigos e que alguns viajantes de então e, hoje, os guias turísticos, referem como milenares, mas o que é exagero. A mais antiga informação deve ser a vinculada pelo naturalista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859) que refere que o famoso dragoeiro de Orotava, em Tenerife, derrubado depois por um tufão, em 1867, mas de que ficaram fotografias e, depois, litografias mais ou menos fantasiadas, teria mais de 6000 anos. Embora uma notável árvore, com 23 metros de altura e uma copa com 24 metros de perímetro, dificilmente poderia ter essa idade.
    O mais antigo e emblemático dragoeiro em Portugal veio da ilha da Madeira e está no Jardim Botânico da Ajuda, em Lisboa, sendo a imagem institucional e o símbolo desse jardim. Este dragoeiro, no entanto, é mais antigo do que o próprio jardim, fazendo parte de um lote de sete plantas já adultas enviadas da ilha da Madeira talvez ainda em 1760 e de que há depois abundante correspondência. Em 1764 veio para Portugal o botânico e professor italiano Domingos Agostinho Vandelli (1735-1816), então para lecionar novos cursos no Colégio dos Nobres, mas cursos que acabaram por não se implantarem, vindo a ser encarregue, em 1768, da organização do “horto régio” nos terrenos do Palácio da Ajuda, que veio a constituir o Real Jardim Botânico da Ajuda. Domingos Vandelli correspondia-se desde 1761 com o naturalista sueco Carlos Lineu (1707-1778), que ainda antes da fundação do jardim, em 1765, lhe pediu o envio de flores do dragoeiro do Horto Régio e, pouco depois de as receber, voltou a escrever-lhe, expressando a sua admiração pelas flores que nunca tinha obtido antes. Em 1767, em nova carta, conta a Vandelli que se encontrava a organizar um sistema de classificação para animais e plantas, integrando no segundo grupo “a memorável Dracaena Vandellii”. Carlos Lineu já teria assim recebido uma primeira descrição daquela planta e a designação de “dragoeiro de Vandelli” era uma homenagem ao botânico do depois jardim da Ajuda, fundado no ano seguinte. Data, assim, de 1768 e da autoria de Vandelli, a primeira descrição científica do dragoeiro, já então como Dracaena draco, depois publicado em 1796, em Lisboa e em Nuremberga, na Alemanha. Ao longo dos anos, este dragoeiro tornou-se num dos maiores exemplares botânicos em Portugal, com uma copa que chegou aos 23 metros de diâmetro, passando a ser utilizado como símbolo do Jardim Botânico da Ajuda. Dada a avançada idade, em 2006, o enorme dragoeiro madeirense adoeceu e, embora acompanhado, acabou por perder quase metade dos seus ramos e rosetas. Foi então necessário montar uma complexa estrutura de suporte em aço para o manter de pé, dado o tronco, entretanto, bifurcado, não conseguir suportar as complexas ramificações da ainda muito ampla copa.
    Bibliografia: ASTLAY, Thomas (edt.), Five Collections of Voyages, 1745 - 47, Londres, vol. I, 1752, nº 31, plate VI; CADAMOSTO, Luís de, As Viagens de Luís de Cadamosto e Pedro de Sintra, trad. italiano, reedição de Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1948; FÉLIX, Emanuel, O Dragoeiro (Dracaena Draco da Macaronésia) Chave da Grande Obra em Jerónimo Bosch, Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, 1988; FRUTUOSO, Doutor Gaspar, Livro Segundo das Saudades da Terra, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1968; HUMBOLDT, Alexander von, Tagebücher der Amerikanischen Reise: Von Spanien nach Cumaná (1799/1800), Berlim, J. B. Metzeler, 2022; LEITE, Jerónimo Dias, Descobrimento da Ilha da Madeira de Jerónimo Dias Leite, comentários de Cristina Trindade, Raimundo Quintal e Rui Carita, coordenação, organização de Luís Eduardo Nicolau e prefácio de José Eduardo Franco, Funchal, Imprensa Académica, 2016; LIZARDO, João, “Algumas representações de dragoeiros na arte europeia na transição dos sécs. XV e XVI”, Islenha (19), jul.-dez. 1996, pp. 44-52; QUINTAL, Raimundo, “Uma planta, uma história: Dragoeiro”, in Jardins, on-line, com fotografias de 2019; VANDELLI, Domingos, Dissertatio de Arbore Draconis, seu Dracaena. Accedunt: Dissertatio de Studio Historiae Naturalis Necessario in Medicina, Oeconomia, Agricultura, Artibus, & Commercio; Lisboa 1768 e 1796, Nuremberga, Alemanha.