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Arquipelago de Origem:
Freguesia da Sé (Funchal)
Data da Peça:
1932-03-05
Data de Publicação:
22/01/2023
Autor:
Carlos Ramos e DN
Chegada ao Arquipélago:
2023-01-22
Proprietário da Peça:
ABM/ARM
Proprietário da Imagem:
ABM/ARM
Autor da Imagem:
ABM/ARM/Rui Carita
Notícia da conferência de Carlos Ramos no Teatro Municipal, Diário de Notícias, Funchal, 5 mar. 1932, p. 1, ilha da Madeira.

Categorias
    Descrição
    Notícia da conferência de Carlos Ramos no Teatro Municipal.
    (1897-1969).
    ABM/ARM, Diário de Notícias, Funchal, 5 mar. 1932, p. 1, ilha da Madeira.

    O arquiteto João Carlos Chambers de Oliveira Ramos (1897-1969), natural do Porto, formou-se pela Escola de Belas-Artes de Lisboa, dado o pai, Manuel Maria de Oliveira Ramos (1862-1931), ter sido convidado para lecionar nessa cidade a cátedra de História na Faculdade de Letras. Cresceu, assim, num privilegiado ambiente intelectual, tendo privado, inclusivamente, com o arquiteto Ventura Terra (1866-1919), o que o levou, em 1915, a fazer exame de admissão ao curso especial de arquitetura civil.
    Teria sido nesse quadro que, em 1931, a Câmara Municipal do Funchal e a Junta Geral do Distrito solicitaram a Carlos Ramos, uma nova proposta de urbanização para a cidade que, embora enraizada no plano inicial do seu mentor e mestre Ventura Terra, não o segue totalmente, acrescentando, inclusivamente, alguns elementos novos. Em março do seguinte ano de 1932, em conferência para o Palácio de São Lourenço, planeada em Lisboa, em dezembro anterior (RAMOS, Carlos, R 12-13 – Urbanização do Funchal, março 1932, policopiado), mas realizada a 5 desse mês de março, no Teatro Municipal (DN, F., 5 mar. 1932, p. 1), explica, precisamente, que o seu trabalho não deveria ser considerado um “plano de urbanização”, que implicaria um outro trabalho mais maduro e alargado, com levantamentos gerais que não estavam feitos, mas somente um “Plano de Melhoramentos”. Mostrando já o caminho de pedagogo que abraçaria nos anos seguintes (1940), então na Escola de Arquitetura do Porto, que viria a dirigir (1952), não deixa de chamar a atenção para a necessidade de “memórias descritivas”, salvaguardando nessa altura, que essa chamada de atenção não incluía o vice-presidente da câmara, então o escultor Francisco Franco (1885-1955), que sempre assim fazia com os seus trabalhos.
    Carlos Ramos passara nos meados de 1931 algumas semanas no Funchal e, a 28 fev. 1932, apresentava numa exposição nas instalações da câmara do Funchal com as suas propostas, algumas em plantas, por certo coloridas e de grandes dimensões, nos finais do ano anterior já apresentadas em Lisboa e com algum destaque na imprensa da capital. Os elementos que chegaram aos nossos dias nos arquivos da CMF, essencialmente, são as fotografias então efetuadas em Lisboa pelo novo estúdio de Mário Novais (1899-1967), precisamente nesse ano de 1931, espólio hoje integrado na Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, mas somente a produção de 1933 a 1983, pela que a destes primeiros anos, só muito pontualmente ali consta, como o projeto revivalista para a câmara municipal de São Vicente, dado como de 1931, mas fotografia, provavelmente, de 1933. A exposição do Funchal foi fotografada por Manuel Perestrello (1893-1980), a 1 mar., tendo o DN publicado uma dessas imagens (DN, 3 mar. 1932, p. 1), mas até ao momento não foi possível localizar os negativos.
    Como Carlos Ramos expôs na sua palestra do Funchal (Ramos, policopiado cit.), o trabalho dado como mais importante, que seria o de adaptação do antigo edifício da Misericórdia do Funchal a sede da Junta Geral, assunto que levantava então vasta polémica. A opção já ia para a reabilitação parcial da fachada para a Avenida Arriaga e a remontagem da restante para a nova Avenida Zarco, o que veio a acontecer alguns anos depois, estando em discussão entre jun. e jul. 1936, com destaque para o periódico Re-Nhau-Nhau, tendo sido efetuado em 1937 e o projeto depois do novo corpo, onde se encontrava o Circo Paris, entregue ao arquiteto Januário Godinho (1910-1990), em ago. 1945.
    O arquiteto abordou depois o projeto dos novos Paços do Concelho de São Vicente, de que parte do material chegou aos nossos dias, bem ao gosto revivalista do chamado “Português Suave”, que o mesmo arquiteto entendia como “a arquitetura que caracteriza a maioria dos Paços do Concelho de Portugal, ou seja, a nossa arquitetura do século XVIII”, o que é, no mínimo, uma meia verdade. Em 1940 existe outra versão, hoje no ABM e não deixa de ser estranho que quase na mesma data haja também projeto de 1939 do arquiteto Edmundo Tavares (1892-1983), único arquiteto a residir na Ilha a partir de 1932, mas ao gosto modernista e não revivalista, como esse e que se repete em 1942. Nenhum veio a ser levantado, já havendo projeto não identificado de cerca de 1900, também não levantado.
    Especial destaque foi dado em seguida aos projetos para os fontanários do Funchal, que Carlos Ramos organizou em 3 conjuntos, marcados “com as armas da Câmara Municipal do Funchal e a data da sua construção”, para “em todos os tempos […] lembrar os nomes daqueles que tiveram essa generosa e singela lembrança”. O “de maiores proporções, destinado, sem dúvida, a ornamentar qualquer praça, largo, topo ou gaveto de maior importância”, era concebido com 3 faces e independente, sendo os dois restantes tipos mais simples e destinados a ficarem encostados a paredes, todos dotados de painéis de azulejos. Parece somente se ter localizado o projeto para o primeiro, embora de 4 e não de 3 faces, datado de jun. 1933 e, depois, levantado no Largo Visconde do Ribeiro Real, mas sem as armas da cidade. Nos anos seguintes, entretanto, um pouco por toda a cidade do Funchal foram sendo levantados estes fontanários com a indicação de C.M.F., a data e painéis de azulejos, projetados por Carlos Ramos.
    Longa memória descritiva foi apresentada sobre a construção dos Bairros Sociais, destinados a serem levantados pelas encostas da cidade, constituindo “o grosso das habitações operárias e das classes médias”, de que vieram vários desenhos e maquetas, reconhecíveis nas fotografias, os chamados “bairros económicos”, mas que parecem não ter chegado até nós. O mesmo se passou com o projeto do Sanatório, embora os desenhos tenham chegado aos nossos dias, mas não a maqueta e tendo o projeto de 1941, sido entregue depois, nas várias ampliações, ao arquiteto Vasco de Morais Palmeiro (Regaleira) (1897-1968), responsável por essa área na Assistência Nacional aos Tuberculosos (ANS).
    A nova avenida oeste de saída do centro da cidade, atual Av. do Infante, mereceu igualmente uma muito especial atenção, assim como o então chamado “Bairro dos Ilhéus”, previsto para bordear a área norte. O arquiteto tece uma série de considerações, de forma que as habitações unifamiliares e independentes a levantar ali obedecessem a uma única gramática arquitetónica “à antiga portuguesa”, a “uma arquitetura tradicionalista, com os seus beirados, azulejos, rótulas, pináculos, vasos de flores, etc., etc.”. Aconselha, inclusivamente, a edilidade a criar “um conselho técnico e de arte” com um engenheiro e um arquiteto, visto tratar-se de uma via destinada às classes mais abastadas, devendo esta nova avenida constituir-se arquitetonicamente como uma via nobre e erudita. Igual cuidado apresentou para os projetos dos “jardins, parques e miradouros”, apresentando desenhos para o Jardim da Pontinha, Largo António Nobre, Largo Ribeiro Real, Largo da Bela Vista (Cruzes), Largo do Torreão, Praça de Tenerife, com o pormenor de seguir a ideia de Ventura Terra de cobrir a ribeira, que passaria a Avenida de João Gomes e o Largo do Socorro ou de Santa Maria Maior, com miradouro sobre a Praia da Barreirinha.
    O arquiteto Carlos Ramos foi alvo no Funchal de algumas homenagens, como a 7 mar., no restaurante-esplanada do Terreiro da Luta e pediu, entretanto, autorização às autoridades locais para apresentar os seus trabalhos em Londres, o que não sabemos se veio a acontecer, tendo embarcado no Carvalho Araújo, para Lisboa, a 10 desse mês de março (DN, 10 mar. 1932, p. 1). Manteria, entretanto, contatos com o Funchal e a Madeira, sendo o principal responsável pela reabilitação da sede da Câmara Municipal do Funchal, em 1940, em parceria com o arquiteto Raul Lino (1879-1974), altura em que teria projetado alguns dos prédios da envolvência, como o das Finanças. E, inclusivamente, com a parceria que viria a montar com o filho, o arquiteto Carlos Manuel Oliveira Ramos (1922-2012), responsável, depois, pelo Hotel Hilton Madeira, encomendado então pela Lignum, nos finais de 60, obras visitadas a 16 jun. 1970 pelo almirante Américo Thomaz (1894-1987) e, inaugurado pelo mesmo, a 19 set. 1971, hotel depois denominado Madeira Palácio. Carlos Ramos (pai) faleceu no Porto, a 1 jul. 1969.

    Bibliografia: AAVV (1986), Carlos Ramos: exposição retrospetiva da sua obra. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian (exposição itinerante); COUTINHO, Bárbara dos Santos (2001), Carlos Ramos (1897-1969): Obra, Pensamento e Acção. A Procura do Compromisso entre o Modernismo e a Tradição. Lisboa: FCSH/ UNL; FERNANDES, José Manuel (abr. 2014), Carlos Ramos, Arquiteturas do século XX em Portugal, Lisboa, IN/Casa da Moeda; RAMOS, Carlos (dez. 1931), “Urbanização do Funchal, conferência realizada no Palácio de S. Lourenço, março 1932” (policopiado, ARM, R 12-13); VASCONCELOS, Teresa (2008), O Plano Ventura Terra e a Modernização do Funchal (Primeira Metade do século XX), tese de mestrado, Coleção Funchal 500 Anos, n.º 5.