Nave lateral do Evangelho com as telas de Marcos da Cruz (atr.), 1660 (c.), igreja de Santa Maria de Óbidos, Portugal.
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Descrição
Nave lateral do Evangelho com as telas de Marcos da Cruz
Óleos sobre tela.
Marcos da Cruz (c. 1610-1683) (atr.), 1660 (c.).
Azulejos de oficina de Lisboa, 1676
Fotografia do Turismo de Óbidos de 2020
Igreja de Santa Maria de Óbidos, Portugal.
Marcos da Cruz (c. 1610-1683), seria, ao seu tempo, um pintor “moderno”, até mesmo inovador em alguns aspetos, pertencendo a uma primeira geração de pintores portugueses, protagonizada por André Reinoso (c. 1590-1650), que introduzem uma significativa alteração de valores e pressupostos na linguagem artística, eventualmente por uma forte influência de Caravaggio (1573-1610). Em Óbidos tem (sob reserva) a sua produção artística exposta na igreja de Santa Maria. As telas dos arcos, embora não se possam considerar obras de primeira linha
no contexto da produção da sua obra são, contudo, suficientemente elucidativas da boa qualidade do seu trabalho, revelando a continuidade da ligação da pintura portuguesa à matriz barroca romana. Também da autoria de Marcos da Cruz é um conjunto de doze telas que preenchem o espaço entre os arcos da nave principal representando os evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e João, bem como São Pedro e São Paulo e dois santos doutores sobre o arco da portaria. Existe ainda a alegoria à Eucaristia e à Fé sobre o arco da capela-mor. De igual modo o friso da nave principal da igreja, composto por dezasseis telas representando passos da vida da Virgem, é atribuível à oficina de pintura de Marcos da Cruz, pese embora este conjunto ser de menor qualidade e, sobretudo, se encontrar muito danificado. O ciclo da Vida da Virgem encontra-se, presentemente, ordenado da seguinte forma: Nossa Senhora da Conceição, Nascimento da Virgem, Apresentação da Virgem no Templo, Desposório da Virgem com São José, Anunciação, Visitação, Adoração dos Pastores, Circuncisão, Adoração dos Magos, Apresentação do Menino no Templo, Fuga para o Egipto, Anjo mostrando o caminho para o regresso do Desterro, Jesus entre os Doutores, Menino Jesus revela a sua futura Paixão, e a Virgem no seu leito de morte rodeada dos apóstolos. Em termos globais estas obras estão já profundamente ligadas ao barroco de influência romana, movimento introduzido por André Reinoso, revelando ainda um maior cuidado especialmente nos tratamentos dos diversos planos dos quadros São Francisco e o Milagre (primeiros planos e fundos) e a Tumulação da Virgem. As telas das naves representam a Multiplicação
dos Pães, a Multiplicação dos Peixes e dois passos da Parábola da Festa das Bodas e a Exclusão daquele que não se encontrava preparado para a festividade. São, entretanto, obras de inegável interesse no contexto da produção deste artista.
A igreja de Santa Maria teria sido mesquita no período muçulmano e foi sagrada por D. Afonso Henriques (1109-1185) logo após a conquista da Vila, em 1148 e depois entregue a S. Teotónio (1082-1162), companheiro de D. Afonso Henriques e prior do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, mosteiro que teve depois o padroado até D. João III (1502-1557) o ter doado a sua mulher, a rainha D. Catarina de Áustria (1507-1578). O templo medieval fora profundamente reformado pela rainha D. Leonor (1458-1525) em finais do século XV, quando ali residiu com certa permanência, mas arrastando-se as obras pelo primeiro quartel do século XVI, tendo ficado dessa campanha a torre sineira, embora depois desmontada e de novo erguida e, de 1526-1528, já depois do falecimento de D. Leonor, o conjunto tumular de Nicolau Chanterene (1470-1551), que acolhe os restos do alcaide D. João de Noronha (1440-1525) e de sua mulher D. Isabel de Sousa. Com a doação a D. Catarina efetua-se a campanha de obras que constitui a configuração atual, com provável risco do arquiteto régio António Rodrigues (ca 1525-1590) (Pedro Flor, 2002). As novas obras iniciaram-se no dia 15 de agosto de 1571, dia da Assunção de Nossa Senhora, em que foi lançada a primeira pedra da nova igreja, com procissão e grande aparato religioso, prosseguindo as obras sob a proteção da Rainha. A estrutura retabular central da capela-mor é atribuída ao pintor João da Costa, com um ciclo de oito pinturas dedicadas a Virgem Maria e deve datar de 1622.