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Arquipelago de Origem:
Santa Maria Maior (Funchal)
Data da Peça:
1938-00-00
Data de Publicação:
06/10/2023
Autor:
Edmundo Tavares
Chegada ao Arquipélago:
2023-10-06
Proprietário da Peça:
Câmara Municipal do Funchal
Proprietário da Imagem:
Rui Carita
Autor da Imagem:
Rui Carita
Mercado dos Lavradores, Edmundo Tavares , 1938 a 1940, Funchal, ilha da Madeira

Categorias
    Descrição
    Mercado dos Lavradores
    Edmundo Tavares (1892-1983), 1938 a 1940.
    O Mercado dos Lavradores foi projetado pelo arquiteto Edmundo Tavares (Oeiras, 8 nov. 1892-Lisboa, 9 abr. 1983) em 1938 e inaugurado a 24 nov. 1940, pelo Dr. Augusto da Silva Branco Camacho (1907-1991), natural da Ponta do Sol, servindo de governador civil, na vigência da presidência da câmara do Funchal do Dr. Fernão Ornelas (1908-1978), presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal do Funchal de 12 jan. 1935 a 22 out. 1946, encontrando-se presente o presidente da Junta Geral, Dr. João Abel de Freitas (1893-1948), o tenente-coronel Francisco Silvestre Varela (1883-1969), governador militar e o cónego magistral Manuel Francisco Camacho (1877-1970).
    Fotografia de 10 de agosto de 2023.
    Rua Brigadeiro Oudinot, Funchal, ilha da Madeira

    O Projeto de Melhoramentos para o Funchal de Edmundo Tavares 1933-1936 (c.)
    Duas plantas nos arquivos da Câmara Municipal, uma das quais assinada e com o título supracitado, mas não datadas, parecem indiciar o primeiro trabalho para a edilidade funchalense deste arquiteto, depois autor de dois dos mais icónicos edifícios da cidade: o Banco de Portugal (1934-1940) e o Mercado dos Lavradores (1938-1940), este, provavelmente, também um dos mais conseguidos da sua época. A confirmar-se a autoria da planta não assinada nem datada, deve a mesma datar de algum tempo depois da estadia do arquiteto Carlos Ramos (1897-1969) no Funchal, em março de 1932, quando se definiu com alguma segurança o traçado da futura Avenida do Infante, então somente equacionada como a via principal do “Bairro dos Ilhéus”, e que esse arquiteto propõe que fosse dotada de habitações unifamiliares e independentes, obedecendo a uma única gramática arquitetónica “à antiga portuguesa”, a “uma arquitetura tradicionalista, com os seus beirados, azulejos, rótulas, pináculos, vasos de flores, etc., etc.”, algumas das quais habitações seriam depois projetadas por Edmundo Tavares (1892-1983), único arquiteto com residência na Ilha nestes anos.
    A planta em causa define assim o traçado da futura Avenida do Infante, assim como a sua sequência para a Avenida Arriaga, que necessitaria de ser alargada para Norte, em parte à custa de uma faixa do Jardim Municipal, o que será efetuado em 1942. Aponta-se, igualmente, a futura intervenção no palácio Carvalhal-Albuquerque, sede da edilidade e que será depois projetada numa parceria de Carlos Ramos com Raul Lino (1879-1974), obra que vai decorrer em 1942, indicando-se a necessidade de aproveitamento da então cerca do Liceu do Funchal, instalado no antigo Paço Episcopal, para a constituição de um futuro largo frente à sede camarária. Nesta planta aparece também a indicação de haver intervenção na área da foz das ribeiras de Santa Luzia e de João Gomes, devendo estar em equação a demolição do então mercado D. Pedro V e a construção de uma ponte sobre essa foz, depois integrante da futura Avenida do Mar.
    A planta dos melhoramentos de Edmundo Tavares apresenta a planta do Liceu do Funchal numa versão muito inicial, provavelmente, de 1936, articulando-se para nascente com o Mercado Municipal, numa configuração e numa localização depois abandonadas. O mercado veio a ser construído bastante mais para poente do liceu, adaptando-se ao quarteirão das ruas Latino Coelho e do Hospital Velho, tendo o seu projeto final sido aprovado em 1938, mas já estando perfeitamente equacionado em meados de 1937 (Cf. Re-Nhau-Nhau, Funchal, 28 jun. 1937, p. 10).
    O arquiteto Edmundo Tavares nasceu em Oeiras, a 8 nov. 1892 e faleceu em Lisboa, a 9 abr. 1983. Arquiteto e professor, foi discípulo de José Luís Monteiro (1848-1942) e fez o curso da Escola de Belas Artes de Lisboa entre 1903 e 1913, com uma das mais altas classificações de todos os cursos lecionados naquela escola nesses anos. Em 1914 já era arquiteto da Câmara de Lisboa, assinando as plantas e alçados da ampliação do Mercado 24 de Julho (Mercado da Ribeira de Lisboa) e, em 1915, expôs na SNBA uma série de projetos de Casas de Estilização Portuguesa, tendo sido premiado com várias medalhas de bronze e prata. Pouco depois de terminado o curso, em 1913, foi quarto premiado, com o escultor Maximiano Alves (1888-1954), no concurso do monumento ao Marquês de Pombal (Ilustração Portuguesa, 27 abr. 2014, p. 256), tal como em 1916 seria também premiado nos concursos para os edifícios dos Paços do Concelho de Guimarães e do Porto. Seria ainda galardoado com o prémio do concurso de pensionistas arquitetos no estrangeiro do legado Valmor, em Paris (1919) e em Roma (1922); terceiro premiado no concurso para a construção do Liceu Dr. Júlio Henriques, em Coimbra (1930), etc.
    Em 1920 fez para a Madeira, Santa Maria Maior, o projeto do palacete do juiz Barata Monteiro, trabalho ao gosto Fim de Século, concorrendo, entretanto ao lugar de professor da Escola Industrial e Comercial do Funchal, cidade onde estava em finais de 1932 e de onde saiu em 1939, para idêntico lugar na Figueira da Foz. Trabalhando sempre paralelamente na atividade liberal, alguns dos seus projetos do Funchal encontram-se fora das datas da sua estadia na Madeira. Assinou, assim, uma vasta obra notável dentro da linguagem modernista e dos cânones da Art Deco, por vezes apelidada de Brutalista e, alternadamente e em oposição, dentro dos cânones do Português Suave, que equacionara já na sua exposição de 1915, na SNBA, em Lisboa e que voltará a desenvolver e teorizar no Funchal, ilustrando e colaborando com o major João dos Reis Gomes (1869-1950) nas Casas Madeirenses (1937), como o mesmo escreve nessa edição, que havia anos que vinham abordando esse tema, assunto a que este arquiteto voltará em Lisboa, em A Habitação Portuguesa, Casas Modernas, Vivendas Portuguesas (1952). Para além de algumas dezenas de habitações, algumas na icónica Avenida do Infante, projetou também unidades hoteleiras, de saúde e educacionais, inclusivamente, uma capela, devendo poucos arquitetos na Madeira terem deixado uma obra desta envergadura e, para mais, no curto espaço de tempo de sete anos.
    Como na abertura desta entrada assinalámos, o projeto da agência do Banco de Portugal (1934), de linguagem eclética e historicista, de fachada cenográfica neobarroca e profusamente ornamentada, parcialmente reforçada com cantaria cinzenta local e coberto por alto telhado piramidal sextavado,  encimado por esfera armilar, tornou-se dos mais icónicos edifícios da cidade, estabelecendo, de certa forma, diálogo com a torre da Sé, tal como com a estátua de Zarco (1928-1934), de Francisco Franco (1885-1955). Interiormente, ainda reforça a cenografia neobarroca, mesmo, quase religiosa, através da iluminação do átrio central por claraboia, seguindo o esquema de articulação interior do antigo Banco Nacional Ultramarino (1924-1926), no seguinte quarteirão, edifício igualmente dotado de cobertura piramidal, mas mais discreta, pois que algo recuada em relação à fachada, é pouco percetível pelo transeunte.
    O seu mais icónico edifício, no entanto, deve ser o do Mercado dos Lavradores (1938-1940), com toda uma outra linguagem muito mais arejada, em alvenaria mista com frisos relevados de betão aparente e de tijoleira, que igualmente reforçam o embasamento, tal como dotado de amplos painéis de azulejos com temas regionais em azul e branco, com molduras policromadas, trabalhos da Faiança Battistini de Maria Portugal (Lepoldo Battistini, 1865-1936), assinados e datados de 1940. O edifício envolve um amplo átrio central, a céu aberto e é percorrido lateralmente por terraços, igualmente abertos, integrando para nascente uma praça de peixe. Não deixando de ser um edifício Estado Novo e dito Português Suave, é assim e em principio, uma das obras mais bem conseguidas do seu tempo.
    Rui Carita
    Universidade da Madeira.
    Bibliografia: FRANCO, Sérgio Miguel Gouveia (2012), A Obra de Edmundo Tavares no Funchal, Universidade Fernando Pessoa, Faculdade de Ciências e Tecnologia, Curso de Arquitetura e Urbanismo, Porto; GOMES, João dos Reis (1937), Casas Madeirenses, colaboração de Edmundo Tavares, Funchal, Diário da Madeira; Ilustração Portuguesa (1914), n.º 427, “Projeto do Monumento ao Marquês de Pombal”, Lisboa, 27 abr. 1914, p. 526; TAVARES, Arq. Edmundo (1952), A Habitação Portuguesa: Casas Modernas, Vivendas Portuguesas, Bertrand Irmãos; Ib. (1980), A madeira na construção civil, seleção de trechos de carpintaria: portas, janelas e acessórios, 2ª edição, Silvas, cop. Trab. Graf. Scael, Lisboa; Re-Nhau-Nhau (1937), “A Câmara Obra!”, Funchal, 28 jun. 1936, p. 10; VASCONCELOS, Teresa (2008), O Plano Ventura Terra e a Modernização do Funchal (Primeira Metade do século XX), tese de mestrado, Coleção Funchal 500 Anos, n.º 5.