Máscara facial Makonde, Planalto de Mueda, 1970 (c.), Moçambique.
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Descrição
Máscara facial Makonde.
Madeira esculpida com patina e pintura, com perfurações para rede (?), 33 x 14 x 16 cm
Escultor Makonde, Planalto de Mueda, Moçambique
Recolhida pela família do comerciante paquistanês China de Mueda por 1970.
Colecção Rui e Joana Carita, Lisboa.
Conhecem-se poucas máscaras faciais Makondes, sendo a maioria máscaras-elmo (lipiko, da dança mapiko). Pontualmente aparecem as faciais, assim como as de tronco (ndumi), utilizadas para simbolizar a mulher e os seus atributos anatómicos. Este exemplar representa, provavelmente, um europeu, que seria assim satirizado, embora não tenhamos obtido informações das representações onde tenha entrado.
Os Makondes são um povo da África oriental que habita 3 planaltos do norte de Moçambique, as margens do Rovuma e o sul da Tanzânia, na ordem de 1.260.000 individuos, mantendo ainda aspetos da sua religião animista tradicional, embora a maior parte da população seja hoje cristã. Têm como atividades principais, a agricultura e, hoje, são essencialmente conhecidos pela sua escultura, onde se reflete visualmente muito da sua cultura, como a antiga utilização de batoque labiais, a mutilação dos dentes incisivos e as abundantes tatuagens, aspetos hoje já muito pouco usados. São um povo Bantu, provavelmente originário de uma zona a sul do lago Niassa, na fronteira entre Moçambique, Malawi e Tanzania, apresentando semelhanças culturais com o povo Chewa, que ainda hoje habita aquela vasta zona, devendo ter pertencido, em tempos remotos, a uma grande federação Marave, que teria iniciado a sua migração para nordeste, ao longo do vale do rio Lugenda. Mantiveram-se muito isolados até tarde e só nos inícios do século XX é que os portugueses, que colonizavam Moçambique, conseguiram controlar as zonas por eles habitadas, dada a sua instalação em planaltos e florestas densas, tal como por terem ganho uma certa imagem de violentos e irrascíveis, conseguindo assim manter uma forte coesão cultural. Nesse quadro, as missões católicas só se conseguem fixar nos seus territórios a partir dos anos 20 do passado século, tendo as conversões ao cristianismo começado apenas por volta de 1930.
Este povo, como muitos outros povos subsarianos, dão especial importância aos ritos de passagem, como os de iniciação masculina e feminina. Especialmente os ritos de iniciação masculina, dentro do complexo do mapico ou mapiko, plural de lipico, nome por que é designada a máscara elmo que ali aparece a dançar, complexo que se tornou a figura mais importante da cultura Makonde, símbolo vivo de um espírito humano, masculino ou feminino, utilizado pelos homens para dominarem pelo medo, mediante bailarinos mascarados, as mulheres e os jovens ainda não iniciados nos ritos de puberdade, não só contribuindo para integrar as crianças no grupo dos adultos, como para estabelecer o equilíbrio entre o grupo dos homens e o das mulheres, sendo o grupo Makonde tradicionalmente matrilinear. Entretanto, começaram a aparecer a partir dos anos 50 e 60 dançarinos a atuar fora das festas de iniciação (licumbi), sendo normal a organização de festas aos fins-de-semana e outras alturas, onde aparecem e, com as suas danças, novas críticas sociais, cimentando o complexo do Mapiko como uma das mais interessantes, importantes e ímpares manifestações culturais moçambicanas.