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Arquipelago de Origem:
Lisboa (cidade)
Data da Peça:
2002-00-00
Data de Publicação:
01/07/2021
Autor:
RTP
Chegada ao Arquipélago:
2021-07-01
Proprietário da Peça:
RTP/Arquivos
Proprietário da Imagem:
RTP/Arquivos
Autor da Imagem:
RTP/Arquivos
Maria Velho da Costa entrevistada por Carlos Pinto Coelho, RTP, Lisboa, 2002, Portugal

Categorias
    Descrição
    Maria Velho da Costa entrevistada por Carlos Pinto Coelho
    (1938-2020)
    Carlos Nuno Pinto Coelho ou Kanu Pinto Coelho
    (1944-2010)
    RTP, Lisboa, 2002, Portugal

    Maria de Fátima Bívar Velho Bruto da Costa (Lisboa, 26 jun. 1938; idem, 23 maio 2020) era licenciada em Filologia Germânica pela Universidade de Lisboa e tinha o curso de Grupo-Análise da Sociedade Portuguesa de Neurologia e Psiquiatria. Foi ajunta do secretário de Estado da Cultura (1979), do Governo de Maria de Lourdes Pintasilgo (1930-2004), leitora do King's College em Londres, presidente da Associação Portuguesa de Escritores e adida cultural em Cabo Verde (1988-91). Ficcionista, ensaísta e dramaturga, consagrada com o livro Maina Mendes, 1969 e as suas crónicas em vários periódicos, associando-se com Maria Isabel Barreno (1939-2016) e Maria Teresa Mascarenhas Horta (1937-), descendente, pelo lado da mãe, da célebre marquesa de Alorna, lançariam as Novas Cartas Portuguesas, em 1972, um livro que se tornou um marco no nosso país pela abordagem da situação das mulheres nas sociedades contemporâneas, que as levaria a tribunal, entendidas como adversas ao regime e aos costumes, pelo seu «conteúdo insanavelmente pornográfico e atentatório da moral pública». A sua escrita situa-se numa linha de experimentalismo linguístico que viria a renovar a literatura portuguesa nos anos 60 e, como afirmou Eduardo Lourenço (1923-2020), é «de um virtuosismo sem exemplo entre nós». Em 1997, foi-lhe atribuído o Prémio Virgílio Ferreira da Universidade de Évora, pelo conjunto da sua obra e em 2002, foi distinguida com o Prémio Camões, cujo júri lhe elogiou «a inovação no domínio da construção romanesca, no experimentalismo e na interrogação do poder fundador da fala».

    Revolução e Mulheres (resumo)
    Elas fizeram greves de braços caídos.
    Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta.
    Elas gritaram à vizinha que era fascista.
    Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas.
    Elas vieram para a rua de encarnado.
    Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água.
    Elas gritaram muito.
    Elas encheram as ruas de cravos.
    Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes.
    Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua.
    Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo.
    Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas.
    Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra.
    Elas choraram de verem o pai a guerrear com o filho.
    Elas tiveram medo e foram e não foram.
    Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas.
    Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa.
    Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões.
    Elas levantaram o braço nas grandes assembleias.
    Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos.
    Elas disseram à mãe, segure-me aí os cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é.
    Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada.
    Elas estenderam roupa a cantar, com as armas que temos na mão.
    Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens.
    Elas iam e não sabiam para onde, mas que iam.
    Elas acendem o lume.
    Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado.
    São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.

    Maria Velho da Costa, Cravo, 1976