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Arquipelago de Origem:
Paris
Data da Peça:
1962-00-00
Data de Publicação:
08/01/2023
Autor:
Lourdes Castro
Chegada ao Arquipélago:
2023-01-08
Proprietário da Peça:
Fundação Serralves
Proprietário da Imagem:
Fundação Serralves
Autor da Imagem:
Fundação Serralves
Letras, Lourdes Castro, Paris, 1962, Col. Fundação de Serralves - Museu de Arte Contemporânea, Porto, Portugal

Categorias
    Descrição
    Letras,
    Madeira, pinça, caixa de metal prateada, plástico e tinta acrílica sobre tela, 50 x 100 cm.
    Lourdes Castro (1930-2022), Paris, 1962.
    Col. Fundação de Serralves ― Museu de Arte Contemporânea, Porto, Portugal

    Maria de Lourdes Bettencourt de Castro, Lourdes Castro (Funchal, Madeira, 9 dez. 1930-8 jan. 2022), frequentou o Colégio Alemão na Madeira, desde o jardim-de-infância e aprendeu a ler com a avó, que era professora e havia sido a primeira aluna do liceu da Madeira. Foi esta que lhe ensinou alemão, inglês e francês. definiu a sua identidade pessoal, em parte, pela sua origem geográfica, essencial para a compreensão da sua obra. No início dos anos 40 o liceu Alemão fechou devido à guerra e, por isso, prosseguiu os estudos com uma senhora alemã, uma botânica que vivia sozinha e dava lições particulares. Aos 20 anos ingressa na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, no curso Especial de Pintura, do qual seria expulsa, cinco anos depois (1956), pela não conformidade com o cânon académico que dominava o sistema de ensino de então, ou seja, após terminar o curso Geral de Pintura a artista presta as primeiras provas, apresenta, então, três pinturas de modelo nu, que marcam já, de uma certa maneira, o caminho que mais tarde virá a trilhar, revelando uma atitude inconformista. A regra era pintar o modelo-nu-de-cor-de-rosa tal como se estava a ver, e ela pintou-o verde, pintou-o amarelo, pintou-o roxo, pintou-o como ela o VIA, sendo, por isso, excluída. Em outubro de 1956, Lourdes Castro casou-se com René Bértholo (1935-2005), pintor português de uma família de origem francesa e nesse ano viajaram até Munique, na Alemanha, onde estiveram cerca de um ano, tendo feito exposições com Costa Pinheiro (1932-2015) e Gonçalo Duarte (1935-1986). Regressaram a Portugal por algum tempo e no Inverno de 1958 fixaram-se em Paris, onde foram recebidos por Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992) e Arpad Szenes (1897-1985), que naquela cidade recebiam e orientavam os artistas portugueses, parte dos quais bolseiros da Fundação Gulbenkian. Naquela cidade René Bértholo criou um dispositivo de serigrafia, que permitiu a edição da revista KWY, fundada por si e por Lourdes Castro, em 1958, ainda em Munique, relacionada com o grupo do mesmo nome, formado pelo casal e pelos artistas Costa Pinheiro, Gonçalo Duarte, José Escada (1939-1980), João Vieira (1934-2009), Jan Voss (1936-) e Christo Vladimirov Javacheff (1935-2020). A revista KWY, 12 números realizados em Paris, entre 1958 e 1963, em colaboração com René Bertholo, nunca teve mais de 300 exemplares, incluiu, pontualmente, outros nomes convidados para cada edição. No início dos anos 60, surgiram também os objetos: acumulações de "tralhas que já não servem para nada", objetos quotidianos em assemblages, coladas sobre antigas telas e pintadas da cor do alumínio.
    Data dessa estadia em Paris, de 1962, as primeiras experiências de sombras de Lourdes Castro, primeiro impressas em serigrafia, depois pintadas na tela, recortadas ou não em plásticos, por vezes sobrepostas, depois ainda bordadas em lençóis, em mais uma memória da ilha da Madeira e ainda projetadas num ecrã e dadas em espetáculo, tornadas movimentos e ação, que a projetaram internacionalmente. A partir de 1963 Lourdes de Castro começa a introduzir a cor no seu trabalho: uma cor uniforme, o vermelho, o azul ou o verde, por exemplo. Estas pesquisas sobre sombras e contornos entendem-se progressivamente da serigrafia à tela, aos plexiglas, aos lençóis e almofadas de linho, no Verão de 1968, evoluindo as iniciais formas recortadas e pintadas para "sombras deitadas", bordadas à mão em lençóis, numa memória da ilha da Madeira, que culminam nas "sombras em movimento" ou teatro de sombras (1973) e assim sucessivamente.
    A condição insular está densamente impregnada nos tecidos que formam a sua subjetividade, principalmente na recorrente imposição de possibilidades de fuga e imposição do peso da limitação territorial. Esta compulsão inata para a invasão de espaços enclausurados, sejam estes territórios físicos, ou psicológicos, será uma característica essencial e omnipresente no corpo do trabalho desta artista. Nesse quadro, a 21 de abril de 1983, com Manuel Zimbro (1944-2003), instalam-se na Quinta do Monte, onde ficam 5 anos, até estar pronta a casa do Caniço, para onde se transferem a 23 de maio de 1988.
    Lourdes e Manuel Zimbro, em dez. 1978, tinham colocado na vidraça do edifício Kunstlerhaus Bethanien, onde moravam, em Berlim, a figura de um anjo, a partir de uma sombra da própria Lourdes. Da estreita relação com o padre José Tolentino Mendonça (1965-), em 2004, o “Anjo de Berlim” foi deslocado para a mítica capela do Rato (Calçada Bento Rocha Cabral, 1 B), em Lisboa e inaugurado como retábulo a 10 dez. 2010. Nessa sequência, Tolentino Mendonça escreveria um belíssimo texto intitulado “Santa Lourdes Castro” (Mendonça, 2011: 24) e, a 11 jul, 2015, frente ao seu retábulo, Lourdes recebeu o Prémio Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes/2015, atribuído pela Igreja Católica para realçar um percurso e obra que refletem o humanismo e a experiência cristã. Em 2020, no dia em que completou 90 anos, foi distinguida com a Medalha de Mérito Cultural, atribuída pelo Ministério da Cultura, que a Ministra, pessoalmente, a 26 abr. 2021, lhe foi entregar na quinta do Caniço, o mesmo acontecendo a 8 jul. quando o Presidente da República e o Representante na RAM lhe foram entregar as insígnias de Comendador da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada. Uma delegação de estudantes da Universidade da Madeira também já se tinha deslocado à sua residência do Caniço, pedindo autorização para a sua vida e obra serem editadas pela Imprensa Académica, num livro ilustrado e essencialmente vocacionado para um público mais jovem, cuja maqueta depois aprovou, sendo editado em dez. 2021. Lourdes Castro faleceu a 8 jan. 2022, tendo o seu percurso de vida e a obra sido reconhecidos pelas mais altas entidades nacionais e regionais, numa interessante unanimidade.
    Seleção de algumas das exposições: 2022, 10 dez., Como uma ilha sobre o mar: Lourdes Castro, curadoria de Márcia de Sousa, MUDAS, Museu de Arte Contemporânea da Madeira (indiv.); 2021, Um oásis ao entardecer , exposição comemorativa dos últimos 20 anos da Fundação EDP (indiv.); 2020, A Vida como ela é, Fundação Serralves, Porto (indiv.); 2019, mar. Lourdes Castro, Ombres & Compagnie, Musée régional d’art contemporain Occitanie/Pyrénées-Méditerranée (indiv.), Sérignan, França; 2015, jul.-out., Lourdes Castro. Todos os Livros, FCG, Lisboa (indiv.); 2013, À Distância, Linha do Horizonte, Museu de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa (com Manuel Zimbro); 2010, À Luz da Sombra, Fundação Serralves, Porto (com Manuel Zimbro); 2005 ; “À Sombra”, Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva (indiv.); 2003, Sombras à volta de um Centro, Fundação Serralves, Porto (indiv.); 2002, O Grande Herbário de Sombras, FCG, Lisboa (indiv.); 2000, Festival de Arte Contemporânea, Marca-Madeira, Funchal (coletiva); Bienal de S. Paulo (participação portuguesa de Lourdes Castro e Mário Tropa); 1999, Openning exhibition for CIRCA 1968, Fundação Serralves, Porto (coletiva); 1999, Arco 99, Galeria Porta 33, Madrid (coletiva); 1999, A Indisciplina do Desenho, Fundação Cupertino de Miranda, Vila Nova de Famalicão (coletiva); 1998, Arte Contemporânea Anos 60/90, Galeria 111, Porto e Lisboa (coletiva); 1995, Lourdes Castro et Montrouge au Portugal, Salon de Montrouge, Paris (indiv.); 1979, dez., Lourdes Castro, Sombras, DRAC, Funchal (indiv.);  1978, Galerie Jean Briance, Paris (indiv.); 1976, Museo de Arte Moderno J. Soto, Ciudad Bolivar, Venezuela (indiv.); 1972, Galerie National, Praga (indiv.); 1971, Akademie der Künste, Moderna Galerija, Ljubljana (com René Bertholo);  1970, Gallery 20, Amsterdão (indiv.); 1969, Galerie Reckermann, Colónia (indiv.); 1968, Galerie Ernst, Hannover (indiv.); 1967, Indica Gallery, London (indiv.); 1966, Stattliche Kunsthalle, Baden-Baden (indiv.); 1965, Galerie Buchholz, Munique (indiv.); 1964, Galeria Divulgação, Lisboa (com René Bertholo); 1957, Galeria Diário de Notícias, Lisboa (com René Bertholo); 1955, Club Funchalense (Indiv.).