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Arquipelago de Origem:
Paul da Serra
Data da Peça:
2022-05-06
Data de Publicação:
07/05/2022
Autor:
Natural ?
Chegada ao Arquipélago:
2022-05-07
Proprietário da Peça:
Antigo Posto Agrário da Bica da Cana
Proprietário da Imagem:
José Lemos Silva
Autor da Imagem:
José Lemos Silva
Giestas ou maias do Paul da Serra, fotografia de José Lemos Silva, 2022, ilha da Madeira

Categorias
    Descrição
    Giestas ou maias do Paul da Serra.
    Antigos terrenos do Posto Agrário da Bica da Cana.
    Fotografia de José Lemos Silva, 6 de maio de 2022.
    Paul da Serra, ilha da Madeira

    O ilustre cronista insulano Doutor Gaspar Frutuoso (1522-1591), na sua obra As Saudades da Terra (1), ao descrever a Ilha da Madeira refere que: «tem finalmente esta ilha tantos matos e rochas, tantos montes e grotas, que affirmão todos que das dez partes da ilha não aproveitão duas, por que a mayor parte della são serranias, terras dependuradas, rochas, e grotas, e ladeiras, e não há terra chaa senão a bocados; mas esses são taes, que valem mais que outro tamanho ouro. E geralmente não tem preço a sustância que tem todas as cousas que esta ilha de si está produzindo, quer por natureza, quer com arte». (...) «Tambem ha páos de louro, e nas faldras da serra, da banda do Sul, muita giesta, que he mato baixo como urzes que dá flor amarella, de que gastão nos fornos, e della se colhe a verga, que esburgão como vimes, de que se fazem cestos brancos mui galantes e frescos para serviço de meza, e oferta de baptismos, e outras cousas, por serem muito alvos e limpos; e se vendem para muitas partes fóra da ilha e do Reyno de Portugal, porque se fazem muitas invenções de cestos mui polidos e custosos, armando-se ás vezes sobre hum, dez, e doze diversos, ficando todos juntos em huma peça só; e para se fazerem mais alvos do que a verga he de sua natureza, ainda que muito branca, os defumão com enxofre». Neste contexto, entendemos que no século XVI, «nas faldras da serra, da banda do Sul» já existia «muita giesta», talvez (!?), introduzida pelos iniciais povoadores.
    Presentemente existem três espécies de giesta introduzidas no arquipélago da Madeira: a «Cytisus scoparius (L.) Link subsp. Scoparius», a «Cytisus striatus (Hill) Rothm» e a « Cytisus multiflorus (L Hér.) Sweet». A primeira existe no arquipélago desde o povoamento, como já referimos. A segunda, foi introduzida na primeira metade do séc. XX. E a terceira, desconhece-se a época da sua introdução, embora, exista a probabilidade de ter sido no mesmo período da anterior.
    Relativamente às enunciadas espécies de giestas, o ilustre Engenheiro Rui Vieira ("Flora da Madeira - Plantas vasculares naturalizadas no arquipélago da Madeira", Boletim do Museu Municipal do Funchal, suplemento N.º 8, CMF, 2002), refere que: a «Cytisus scoparius (L.) Link subsp. Scoparius, é com certeza a esta espécie ou melhor subespécie, que o povo designa vulgarmente por giesta ou giesteira, que relata Gaspar Frutuoso, nas Saudades da Terra (1590)», (…). «A ser assim, este arbusto (que a maioria dos botânicos considera não espontâneo no arquipélago da Madeira, o que não é, verdadeiramente, um dado adquirido) teria sido introduzido com os povoadores portugueses no século XV ou já no século XVI e não no século XVIII, como era a opinião de Lowe, expressa em 1862, falando sobre a Sarothamnus scoparius L. (designação sinónima da anterior): “Doubtless originally introduced into Mad., though proved by an old spec. in the BH. (Banksian Herbarium at the British Museum) to have been existing there nearly 100 years ago, and now diffused so extensively, both by culture and self-propagation, as to appear perfectely indigenous: flooding the mountain-sides for miles with seas of golden blossoms in the spring and early summer”. Admitindo-se que esta planta foi introduzida (e naturalmente com origem portuguesa), tornou-se portanto rápida e extensivamente naturalizada, como ainda hoje o podemos comprovar, desde o mar (Caniçal) até os altos píncaros, acima de 1800 m de altitude. E, também, se encontra naturalizada, embora com raridade, em Porto Santo e na Deserta Grande. Ocorre, agora, sobretudo em incultos, terrenos pedregosos, encostas rochosas, das zonas montanhosas, onde falta muitas vezes a camada arável; e deixou praticamente de ser cultivada, como era até meados do século XX, para ser depois enterrada como adubo verde para fertilizar os terrenos agrícolas mais pobres. Também, já quase se não fazem os trabalhos de cestaria, tão interessantes, atrás referidos ou outros igualmente úteis (cestos para usos agrícolas); nem se usam (ou muito pouco) os ramos para a confecção de vassouras, nem como tutores na agricultura, nem (ou quase nada) como combustível. A giesta, sobretudo em flor, é agora quase só mais um objecto de contemplação e um enriquecimento da paisagem madeirense. Esta subespécie europeia é espontânea em Portugal Continental e nos Açores, onde é conhecida por giesteira-das-vassouras e, também, apenas, giesta».
    Quanto à «Cytisus striatus (Hill) Rothm», ainda mais refere o Engenheiro Rui Vieira que a mesma é: «também conhecida na Madeira por giesta, esta espécie, de ramagens, folhas e floração semelhantes à espécie anterior, tem todavia os raminhos novos mais angulosos, flores um pouco menores, embora igualmente de um bonito amarelo-vivo e formando um autêntico manto a cobrir toda a planta (como às vezes sucede também com a espécie anterior) e os frutos (vagens) mais pequenos, ligeiramente intumescidos e cobertos de pêlos em toda a sua superfície, ao contrário dos da C. scoparius que são muito comprimidos e só peludos na margem. Este arbusto deve ter sido introduzido há poucos anos e vimo-lo cultivado e perfeitamente naturalizado no montado do Pereiro, nas proximidades do Poiso, nos primeiros anos da década de 50. Durante a II Grande Guerra Mundial e anos seguintes (1940-1949) houve importações de semente de giesta e deve datar daí a introdução e a cultura desta planta. De qualquer forma, a finalidade do cultivo foi essencialmente a do revestimento de terrenos montanhosos incultos, com o aproveitamento das ramagens, sobretudo, em adubações verdes. Muito menos difundida do que a giesta vulgar, esta espécie encontra- se por toda a Ilha (não em Porto Santo e Desertas), muitas vezes misturada com essa outra espécie (…), em zonas de média e elevada altitude (até 1400 m). É originária da Península Ibérica e Marrocos, sendo conhecida, em Portugal Continental, por giesteira-das-serras».
    Relativamente, à «Cytisus multiflorus (L Hér.) Sweet», que tem as mesmas características botânicas, semelhantes às espécies descritas anteriormente, é um «arbusto ramificado, ramos erguidos, estriados e flexíveis, verde-acinzentados, folhas caducas formadas por três folíolos». As flores são brancas e o fruto é uma «vagem penugenta» (ou «bagina» como lhe chamavam os madeirenses antigamente). É conhecida por «giesteira branca», «giesta branca» ou «maia». Sendo uma espécie pouco comum na Madeira, encontra-se confinada em algumas áreas geográficas da Ilha. Desconhece-se a época em que foi introduzida. É originária da Península Ibérica.
    Na Madeira no séc. XIX, uma «propriedade de terra coberta de giestas» (2) ou com sementeira de «bagina» (sementes de giesta), valia «muitos reis» aos proprietários e colonos na Ilha. A giesta, em tempos antigos (e não só), era uma espécie de «planta extraordinária» para os terrenos pouco produtivos e como leguminosas que são, ajudam na fixação do azoto no solo. Este, arbusto durante três ou quatro anos sucessivos, surgia como uma forma capaz para os mesmos terrenos retomarem a sua fertilidade. Para além destas utilizações, a flor de giesta também foi usada na alimentação, em tempos de penúria. Assim, de acordo com o Elucidário Madeirense (3), «em Setembro de 1757 houve fome na Madeira, em razão de haver faltado o pão. Segundo se lê num oficio dirigido pelo governador Manuel Saldanha da Gama a Tomé Joaquim da Costa Corte Real, nalguns pontos da ilha o povo só de raízes, flor de giesta e frutos se alimentava, mas a crise foi pouco duradoura, pois que em Novembro seguinte já a ilha se achava abastecida de cereais. É curioso que o povo utilizasse na sua alimentação as flores de giesta, quando tinha muitas plantas, tais como os agriões, as azedas, as rabaças, as labaças e até mesmo as urtigas e as serralhas, dotadas de um sabor mais agradável do que as referidas flores». A plantação, utilização e transporte de giestas e outros matos foram sempre regulamentadas posturas municipais (4).
    Em Portugal Continental, a giesta é conhecida pelo nome de «maia». Na etimologia deste nome estão as «celebrações de fertilidade» que os gregos consagravam a «Maia, a deusa da terra, da fecundidade e do crescimento das plantas, dos homens e de todos os seres vivos». É na zona centro e norte de Portugal que ainda hoje permanece uma das tradições mais remotas, o «Dia das Maias», celebrado no primeiro dia do mês de Maio, e que se inicia «por pendurar, antes da meia-noite, na porta da casa, um ramo de flores de giestas para garantir uma estação de fartura e que o mau-olhado não se atreva a entrar». Os celtas, celebravam neste mês o início do Verão.
    Atualmente as giestas, «Cytisus scoparius (L.) Link» e a «Cytisus striatus (Hill) Rothm» são espécies classificadas como invasoras (5) apenas na Região Autónoma da Madeira, de acordo com o Decreto-Lei n.º 92/2019. Comparativamente à «Cytisus multiflorus (L Hér.) Sweet» nada consta no mesmo decreto-lei.
    Notas:
    (1) AZEVEDO, Álvaro Rodrigues (1873), As Saudades da Terra pelo doutor Gaspar Fructuoso. História das ilhas do Porto Sancto, Madeira, Desertas e Selvagens, manuscripto do século XVI annotado por (…), Funchal, Typ. Funchalense, Capitulo XIX, pp. 105-106.
    (2) Por curiosidade, numa «arrematação perante o Governador Civil», de «bens pertencentes ao convento de Nossa Senhora da Encarnação no Funchal», prevista para o dia 20 de março de 1867 no «districto do Funchal», concelho de Santa Cruz descrita no Diário do Governo n.º 283 de 13 de dezembro de 1866, «uma propriedade de terra coberta de giestas no sitio do Curral Velho, freguezia de Santa Cruz, de que são colonos Manuel Ferreira e herdeiros de José Martins: confronta pelo norte com a ribeira da Boa Ventura, sul com aguas vertentes do Lombo do Curral Velho, leste com Norbeito Martiniano Spinola, e oeste com o morgado José Justiniano», estava avaliada em 86$OOO (reis).
    (3) SILVA, Padre Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de (1984), Elucidário Madeirense, fac-símile da edição de 1946, Secretaria Regional de Turismo e Cultura - Direcção Regional dos Assuntos Culturais, Funchal, p. 68.
    (4) Camara Municipal do Funchal.
    «Postura approvada pela Camara em sessão de 25 do mez de Julho de 1860, relativa a madeiras, lenhas, cascas, raizes e ramagens do arvoredo das serras d'este Concelho. Tambem se refere esta Postura a carvão, queima, giesta e mato
    «Artigo 1.º - É inteiramente prohibido, no concelho do Funchal, a introducção de madeiras, de lenha, de cascas e de ramagens das arvores que expontaneamenle vegetam nas serras da ilha da Madeira, taes como: loureiros, tis, vinhaticos, adernos, folhados, barbosanos e outras semilhantes, e bem assim de raizes tanto d'estas arvores como de quaesquer arbustos silvestres.
    «Artigo 2.º - Exceptuam-se, porém, da geral prohibição do artigo primeiro, as madeiras e a lenha das arvores que posto que sejam das especies que vegetam nas serras, tenham sido creadas em terrenos de particulares, abaixo dos antigos bardos que limitam as mencionadas serras; as quaes madeiras e lenha poderão ser introduzidas no concelho do Funchal, uma vez que seus donos tenham para isso obtido previa licença da Camara, confirmada pelo Conselho de Districto.
    «§ unico - A camara não poderá nunca conceder licença para que se faça madeira ou lenha das arvores que se achem nas encostas das montanhas sobranceiras a ribeiras ou ribeiros nem a menos de cem metros de distancia d'alguma nascente d'agua, senão no caso em que essas arvores se tenham seccado expontaneamcnte, e debaixo da expressa condição de que o proprietario as fará immediatamente substituir. (…)
    «Art. 16.º - Toda a pessoa que for encontrada conduzindo giésta ou mato verde, sem que prove ter terras suas onde os colhesse, ou que esse mato ou giésta lhe foi dado ou vendido pelo seu legitimo dono, será punida com a pena de mil reis de multa e apprehenção do objecto da infracção.
    «Art. I7.º - Será egualmente punida com a pena de mil reis de multa e apprehensão do objecto da infracção, toda a pessoa que fôr encontrada conduzindo queima ou qualquer outro combustível em maranhos, sendo estes atados de giesta.» (…)
    In: Posturas da Camara Municipal da cidade do Funchal, 1895, pp. 171-172-176-177.
    (5) O Decreto-Lei n.º 92/2019 descreve que: «uma espécie invasora é a espécie exótica cuja introdução na natureza ou propagação num dado território ameaça ou tem um impacto adverso na diversidade biológica e nos serviços dos ecossistemas a ela associados, ou tem outros impactos adversos».
    José Lemos Silva, 7 de maio de 2022