Fábrica de manteiga Águia, 1917 (c.), Lombo de São Lourenço, Fajã da Ovelha, Calheta, ilha da Madeira.
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Descrição
Fábrica de manteiga Águia.
Alvenaria mista de pedra, 1917 (c.).
Fotografia de Anabela Gomes, 2026
Lombo de São Lourenço, Fajã da Ovelha, Calheta, ilha da Madeira.
Fajã da Ovelha, indica uma extensão de terreno plano de material geológico desprendido e a criação de gado ovino na localidade. É topónimo documentado, pelo menos, desde 1501 e, nos anos seguintes do primeiro quartel do século XVI, quando das estimativas da produção de açúcar. Pela Fajã da Ovelha, entre 27 e 30 de dezembro de 1921, passou o ex-imperador da Áustria e ex-rei da Hungria, Carlos (1887-1922), obrigado a exilar-se na Madeira, após ter tentado retomar o poder na Hungria. Foi de automóvel até à Ribeira Brava. Aqui embarcou no vapor costeiro «Vitória». Desembarcou no Paul do Mar e foi transportado numa rede até à Fajã da Ovelha. Com António Vieira de Castro (1900-1933) e Gabriel Bianchi, o ex-imperador participou numa caçada. Visitou também as freguesias das Achadas da Cruz e da Ponta do Pargo, na companhia de Pedro Augusto de Gouveia (1882-1967). Ficou hospedado na casa de Augusto César de Gouveia (1856-1922). Augusto César de Gouveia desempenhou funções políticas no Município da Calheta, no tempo da Monarquia. Pertencia ao Partido Regenerador. Era também um proprietário abastado e industrial da freguesia, nas áreas da moagem, panificação e serração de madeiras.
O seu filho, Pedro Augusto de Gouveia, distinguiu-se como autarca, na Calheta e no Funchal, e foi presidente do Club Sport Marítimo nos anos de 1917-1921, mas ficou conhecido como industrial de laticínios. Fundou uma fábrica de manteiga no Lombo de São Lourenço, licenciada em 1917. Situada num prédio industrial, a produção de manteiga era feita no primeiro piso, enquanto no segundo estavam instalados moinhos acionados por força hidroelétrica, um de fabrico alemão e outro austríaco. A produção anual de farinha variava entre os 40 000 e os 100 000 kg. Comercializada como «Manteiga Águia» era vendida no Funchal e exportada para o Continente e colónias. As embalagens eram transportadas, por carretas, até à Ladeira dos Zimbreiros, e daqui, através de um «fio de carga», até ao Paul do Mar, de onde seguia para o Funchal, por via marítima. A Fábrica da Manteiga deixou de funcionar no início da década de 60 do século passado. Em 1974, foi vendida a um cidadão estrangeiro e hoje diz-se ser propriedade de uma instituição bancária ou grupo financeiro. Entretanto, em 2002, o imóvel foi classificado como Património de interesse municipal. Falou-se na sua recuperação e na criação de um espaço museológico. Foi delineado um projeto arquitetónico de reabilitação em 2010. Mas nada avançou, a não ser o lume, em outubro de 2023, que destruiu o vetusto prédio industrial.
Cronologia da fábrica de manteiga Águia.
Séc. 19, 2ª metade - construção do inicial edifício por Augusto César de Gouveia (1856-1922); 1917 - reconstrução do anterior edifício com o licenciamento da fábrica; 1960 (c.) - encerramento da fábrica; 1974 - comprada por Paul Clasgaus Kunkel Júnior; 2002 - classificação como de interesse municipal pela câmara municipal da Calheta com a ideia de via a instalar uma unidade museológica industrial; 2023, 11 a 13 out. - grande incêndio na área, só tendo ficado as paredes da antiga fábrica;
Adaptação do texto de Nelson Veríssimo, “Freguesias da Madeira: Fajã da Ovelha”, Funchal Notícias.net, 25 jan. 2026.