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Arquipelago de Origem:
Lisboa (cidade)
Data da Peça:
1714-00-00
Data de Publicação:
20/04/2023
Autor:
Troilo Vasconcelos da Cunha
Chegada ao Arquipélago:
2023-04-20
Proprietário da Peça:
Privado
Proprietário da Imagem:
Privado/Rui Carita
Autor da Imagem:
Privado
Espelho do Invisivel, Troilo de Vasconcelos da Cunha, Lisboa, oficina de José Lopes Ferreira, 1714, Portugal

Categorias
    Descrição
    Troilo de Vasconcelos da Cunha, Espelho do Invisivel, Em Que Se Expoem a Deos, Hum, e Trino, no Throno da Eternidade, as Divinas Ideas, Christo, & a Virgem, o Ceo & a Terra: Poema Sacro,
    (1654-1729)
    Lisboa, na oficina de José Lopes Ferreira, impressor da Sereníssima Rainha Nossa Senhora, 1714.
    Coleção particular do Funchal, ilha da Madeira


    Troilo de Vasconcelos da Cunha (1654-1729) foi um poeta gongórico, fidalgo da casa real e secretário da Junta dos Três Estados. Os autores são unânimes ao referirem que nasceu no Funchal, em 1654, quando seu pai, Bartolomeu de Vasconcelos da Cunha (c. 1610-1663), era governador capitão-general da ilha da Madeira, tendo sido investido no governo desta a 23 de agosto de 1651 e tomado posse a 16 de outubro de 1651. Bartolomeu de Vasconcelos da Cunha chegou à Ilha acompanhado de Antónia Micaela da Cunha, mãe de Troilo de Vasconcelos da Cunha, que não era sua legítima esposa, tendo, por conseguinte, a criança nascido ilegítima. Foi em carta datada de 15 de março de 1656 e oficializada a 4 de julho de 1657, que Troilo de Vasconcelos da Cunha foi legitimado por seu pai, juntamente com mais dois irmãos nascidos também ilegítimos, de seus nomes Bartolomeu Vasconcelos da Cunha e Maria Vasconcelos da Cunha, respetivamente o primeiro filho e a última filha nascidos da relação (ANTT, Registo Geral de Mercês, Mercês da Torre do Tombo, liv. 15, fl. 541v.).
    Troilo de Vasconcelos Cunha casou-se em Lisboa com Mónica da Silva Coutinho, filha de Jerónimo Pereira de Herve, descendente de alemães, e de Mariana de Sousa Coutinho. Fruto deste casamento nasceram cinco filhos, dos quais apenas um não se tornou religioso: Bartolomeu de Vasconcelos da Cunha, moço fidalgo da Casa Real. Os outros quatro, a saber: Bartolomeu Vasconcelos, padre jesuíta; Rodrigo de Vasconcelos, professo na Ordem da Santíssima Trindade; Antónia de Vasconcelos e Guiomar de Vasconcelos, religiosas professas da Ordem de S.ta Clara, ingressaram, como se constata, em diversas congregações. Segundo Costa e Silva, Troilo de Vasconcelos da Cunha observou com “aproveitamento” as letras humanas, tendo sido reconhecido como assaz conhecedor das línguas grega e latina, bem como pelos seus vastos conhecimentos em teologia. Em termos profissionais, foi secretário da Junta dos Três Estados durante o reinado de D. Pedro II, entre os finais do séc. XVII e o XVIII, mas o seu reconhecimento advém, sobretudo, das obras poéticas, sendo considerado pelos seus pares como poeta assaz talentoso, admirado e respeitado pela sua profunda cultura humanista, tornando-se assim um dos fidalgos mais considerados na corte. A aceitação, à época, das suas criações poéticas abriu-lhe as portas de diversas academias, de que foi sócio, sendo as suas criações poéticas recitadas nestes espaços e, nas palavras de Costa e Silva, “manuscritas pelas mãos dos curiosos” (SILVA, 1855, X, 201). Álvaro Rodrigues de Azevedo coloca Troilo de Vasconcelos da Cunha, na sua proposta de periodização literária madeirense, no período III, que intitulou de “monárquico-secular”, e que se reporta aos anos compreendidos entre 1706 e 1820, considerando-o “o mais distinto discípulo madeirense da escola gongórica” (FRUTUOSO, 2008, 789). Nos escritos de Troilo de Vasconcelos da Cunha, tanto em prosa como em poesia, que sobreviveram, existe uma tradução dedicada a Justino, historiador romano, intitulada Justino Lusitano, ou Tradução de Justino da lingoa Latina para a Portugueza e ainda a sua obra mais conhecida, Espelho do Invisivel, Em Que Se Expoem a Deos, Hum, e Trino, no Throno da Eternidade, as Divinas Ideas, Christo, & a Virgem, o Ceo & a Terra: Poema Sacro, de 1714. Subsistem ainda alguns poemas dispersos na Fénix Renascida (BORGES et al., 1987, 133). Diogo Barbosa Machado indica que existe um soneto de Troilo de Vasconcelos da Cunha no livro Acroamas Panegyricos com que a Cathedral de Coimbra aplaudio a reliquia de S. Thomaz de Villa-Nova (MACHADO, 1966, III, 765-766). José Maria da Costa e Silva refere que este foi o primeiro poema didascálico a aparecer em língua portuguesa, mas foi, sobretudo, a partir da obra Espelho do Invisivel que os autores têm delineado o estilo poético de Troilo de Vasconcelos da Cunha. Costa e Silva considera este poema austero e monótono, devido à difícil temática teológica e doutrinária, acrescentando haver nele “pouco apuro da linguagem”, sem que deixasse, contudo, de elogiar o talento e a imaginação do poeta (SILVA, 1855, X,202). Inocêncio Francisco da Silva aponta que o poema é composto por 10 cantos em oitavas ritmadas num total de “974 [estrofes], ou 7792 versos”, acrescentando que Troilo de Vasconcelos da Cunha escreveu um poema próprio do seu tempo, concordando com Costa e Silva quanto à monotonia do assunto, à falta de comparações e à pouca elegância das frases do poema. Inocêncio, contudo, elogia o engenho e os “rasgos de originalidade”, que, comparados com outros poetas da escola gongórica, Troilo de Vasconcelos da Cunha possuiu, traduzidos num “estilo quase sempre puro, é mais limpo dos conceitos, metáforas e trocadilhos da escola gongórica” (SILVA, 1858, VII, 388). Fernando Augusto da Silva refere que a complexidade dos temas teológicos abordados por Troilo de Vasconcelos da Cunha tornava o assunto “impróprio de ser tratado em verso”, tornando “esse poema de difícil compreensão” (SILVA e MENESES, 1998, I, 339). Troilo de Vasconcelos da Cunha faleceu em Lisboa, na freguesia das Mercês, onde residia, numa casa da R. de S. Boaventura, a 4 de agosto de 1729, já viúvo, tendo sido sepultado no jazigo de J.M.J., na igreja de S. Roque.
    Obras de Troilo de Vasconcelos da Cunha: Espelho do Invisivel, Em Que Se Expoem a Deos, Hum, e Trino, no Throno da Eternidade, as Divinas Ideas, Christo, & a Virgem, o Ceo & a Terra: Poema Sacro (1714); Justino Lusitano, ou Tradução de Justino da Lingoa Latina para a Portugueza em Que seu Author Descreve as Historias do Mundo Recopilando nos 44 Livros Que Vão neste, Outros Tantos Volumes, em Que as Escreveo Trogo Pompeyo (1726).
    Bibliogr.: manuscrita: ANTT, Registo Geral de Mercês, Mercês da Torre do Tombo, liv. 15, fl. 541v.; ANTT, Registo Geral de Mercês, Mercês de D. João V, 1714, liv. 6, fl. 473; ANTT, Registo Geral de Mercês, Mercês de D. Pedro II, 1697, liv. 11, fl. 192; ANTT, Paróquia de Mercês, liv.1, fl. 31v.; BORGES, Ângela et al., Antologia Literária, Madeira Sécs. XVII e XVIII, Funchal, Secretaria Regional da Educação, 1987; COSTA, António Carvalho da, Corografia Portugueza e Descripçam Topografica do Famoso Reyno de Portugal, com as Noticias das Fundações das Cidades, Villas, & Lugares, Que Contem; Varões Illustres, Genealogias das Familias Nobres, Fundações de Conventos, Catalogos dos Bispos, Antiguidades, Maravilhas da Natureza, Edificios, & Outras Curiosas Observaçoens, 3 vols, Lisboa, Officina de Valentim da Costa Deslandes, 1706-1712; FRUTUOSO, Gaspar, Saudades da Terra. História das Ilhas do Porto Santo, Madeira, Desertas e Selvagens, anot. Álvaro Rodrigues de Azevedo, Funchal, Empresa Municipal Funchal 500 anos, 2008; MACHADO, Diogo Barbosa, Bibliotheca Lusitana, t. III, Coimbra, Atlântida Editora, 1966; MARINO, Luís, Musa Insular, Funchal, Editorial Eco do Funchal Lda., 1959; NORONHA, Henrique Henriques de, Memórias Seculares e Eclesiásticas para a Composição da História da Diocese do Funchal na Ilha da Madeira, Funchal, CEHA, 1996; PORTO DA CRUZ, Visconde, Notas & Comentários para a História Literária da Madeira, 1º Período, 1420-1820, vol. I, Funchal, 1949; SILVA, Fernando Augusto da, e MENESES, Carlos de Azevedo de, Elucidário Madeirense, vol. I, 4.ª ed., Funchal, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1998; SILVA, Inocêncio Francisco da, Diccionario Bibliographico Portuguez: Estudos Applicaveis a Portugal e ao Brasil, t. VII, Lisboa, Imprensa Nacional, 1858; SILVA, José Maria da Costa e, Ensaio Biographicocritico Sobre os Melhores Poetas Portuguezes, ed. João Pedro da Costa, t. X, Lisboa, Imprensa Silviana, 1855. (Carlos Barradas, DEM 3)