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Arquipelago de Origem:
Lisboa (cidade)
Data da Peça:
1557-00-00
Data de Publicação:
23/11/2023
Autor:
Brás de Albuquerque
Chegada ao Arquipélago:
2023-11-23
Proprietário da Peça:
Coleção Sérgio Moreno
Proprietário da Imagem:
Universidade de Coimbra
Autor da Imagem:
Universidade de Coimbra
Comentários de Afonso de Albuquerque, Brás de Albuquerque, Lisboa: por João de Barreira, 1557, Portugal

Categorias
    Descrição
    Brás de Albuquerque, Comentários de Afonso de Albuquerque
    (c. 1500/1501-1581) e (1453-1515)
    Impresso sobre papel, 20 × 28 cm.
    Lisboa: por João de Barreira, 1557.
    Coleção Sérgio Moreno, Lisboa, Portugal.
    Pub. in Os Portugueses no Golfo, 1507–1650, uma história interligada, The Portuguese in the Gulf, 1507–1650, an interlinked history, catálogo de exposição na Feira do Livro do Emirado de Sharjah, Emirados Árabes Unidos, 1–12 novembro 2023, com coordenação científica de José Pedro Paiva e Roger Lee de Jesus, apresentação/introdução de Ahmed Bin Rakkad Al Ameri, presidente da Sharjah Book Authority, Centro de História de Sociedade e Cultura da Universidade de Coimbra, Imprensa da Universidade, março de 2023, nº 47, p. 127.

    As crónicas sobre o império português na Ásia são fontes essenciais para compreendermos e analisarmos essa presença europeia. Os autores e as obras aqui apresentadas são dos mais relevantes sobre este assunto. Por volta de 1531, João de Barros (cerca de 1496–1570) começou a preparar em Lisboa, da forma mais ampla que conseguiu, a história da Expansão Portuguesa, respondendo assim aos pedidos que desde há algum tempo eram feitos no sentido de que uma tal matéria fosse tratada. A essa enorme iniciativa historiográfica deu o nome de Ásia tendo declarado que estaria concluída em 1539. Mesmo que se possa aceitar ter então acabado uma primeira redação desse trabalho sabemos que a sua preparação final foi sendo retocada e acrescentada em datas posteriores e que, mesmo depois de publicada em 1563 a sua terceira década da Ásia, a quarta ainda ficou incompleta e por corrigir. A primeira década da Ásia é consagrada à história dos Descobrimentos Portugueses até 1505, tendo sido impressa em 1552. A segunda década da Ásia saiu em 1553 e trata do período histórico que abarca as ações dos portugueses no Oriente entre os anos de 1505 e 1515.
    Fernão Lopes de Castanheda (cerca de 1500–1559) foi para a Índia em 18 de abril de 1528 e por lá andou dez anos tendo durante esse período conhecido pessoalmente muitos dos locais que viria a referir na obra que escreveu tendo então contactado com intervenientes em ações que narrou, de forma a registar informações que deles obteve, além de ter consultado numerosa documentação. Depois de ter partido para Portugal, onde chegou em 1539, Castanheda radicou-se em Coimbra e nas décadas de 30 e 40 do século XVI escreveu da forma mais minuciosa que pôde uma vasta História do Descobrimento e conquista da Índia pelos portugueses cujo primeiro volume foi impresso em 1551 tendo o oitavo saído postumamente em 1561.
    Gaspar Correia (cerca de 1492–cerca de 1564) partiu para a Índia em 1512 e nos inícios da segunda metade do século XVI decidiu escrever uma extensa história dos portugueses no Oriente até 1550 à qual terá chamado «Crónica dos feitos da Índia», mas que ficou conhecida pela denominação de Lendas da Índia. A redação desta obra decorreu predominantemente entre 1561 e 1563 tendo ficado manuscrita até ser publicada no século XIX. As Lendas da Índia revelam deficiências na forma como por vezes o autor procedeu ao registo de muitos dos acontecimentos narrados. Por esse motivo as suas observações têm de passar por uma rigorosa crítica antes de poderem ser aceites.
    Brás de Albuquerque (1500/1501–1581) era filho natural de Afonso de Albuquerque (1453-1515) e tinha formação humanista, preparou uma obra consagrada à exaltação das atividades do seu pai no Oriente. O facto que terá levado Brás de Albuquerque a escrever sobre as ações do seu progenitor talvez se encontre na circunstância de ter considerado que nas crónicas publicadas por Fernão Lopes de Castanheda e João de Barros não se terem destacado como ele desejava os feitos de Afonso de Albuquerque. Foi assim que ele decidiu proceder a um tratamento mais exaustivo e em tom encomiástico de tal matéria. Para esse efeito Brás de Albuquerque baseou-se fundamentalmente nas cartas que o pai escrevera ou lhe haviam sido dirigidas, bem como em outros textos e depoimentos que recolheu. O resultado do seu labor historiográfico materializou-se em 1557 na publicação de um volume a que deu o título: Commentarios de Afonso Dalboquerque.
    As obras destes autores narram de forma mais ou menos pormenorizada, por vezes com pequenas diferenças, assuntos relativos a presença dos portugueses no Golfo, nomeadamente da forma como lá foram pela primeira vez em 1507 sob o comando de Afonso de Albuquerque, assunto que pela sua importância passamos a sumariar muito rapidamente. Afonso de Albuquerque partiu da ilha de Socotorá em 10 de agosto de 1507 com uma armada constituída por cinco navios que trouxera de Lisboa onde iam embarcados uns quatrocentos e sessenta homens. Esta armada dirigiu-se para a costa da península Arábica tendo-a percorrido até chegar ao chamado cabo Rosalgate (Musadam), que no século XVI se considerava ser o princípio da costa onde começava o reino de Ormuz. Ele já então percebera que a sua melhor opção estratégica para dominar economicamente aquela região, de acordo com os objetivos portugueses, consistia em ir a Ormuz, que havia sido informado corresponder à cidade mais rica da região e ficar na ilha do mesmo nome que se encontrava à entrada de um golfo separando terras situadas na península Arábica e regiões pertencentes à então chamada Pérsia (Irão). Durante a referida expedição rumo a Ormuz Afonso de Albuquerque contactou com várias povoações onde teve intervenções violentas a começar por Calaiate (Qalhat), onde chegou em 21 de agosto de 1507. Depois passou por Curiate (Qurayyat), Mascate (Mascat), Soar (Sohar) até chegar em 21 de setembro a Corfação ou Orfação (Khawr Fakkân ou Hur Faakkan), que deixou em 26 de setembro de 1507. Ainda neste mesmo dia chegou à ilha de Ormuz, onde não foi possível estabelecer um acordo que assegurasse uma presença portuguesa dominante na região, o que levou Afonso de Albuquerque a dirigir uma ofensiva contra aquela cidade. Em resultado dessa ação o rei local assinou um tratado de paz em 10 de outubro de 1507, através do qual reconheceu a suserania portuguesa sobre a cidade, tendo-se comprometido a pagar um tributo e a deixar construir ali uma fortaleza. Os trabalhos para levar a cabo tal obra iniciaram-se em 24 de outubro de 1507, mas desentendimentos entre Afonso de Albuquerque e alguns dos seus capitães, que questionaram aquela iniciativa, não permitiram que a fortaleza se concluísse. Por tal motivo em janeiro de 1508 Afonso de Albuquerque deixou-a por acabar, só retomando a sua edificação em 1515, quando nesse ano lá regressou em abril para a concluir. Essa fortaleza passaria a ter uma grande importância para o controlo português do Golfo, o que aconteceu até 1622. [José Manuel Garcia, pp. 121-122]