Image
Arquipelago de Origem:
Santa Luzia (Funchal)
Data da Peça:
1940-11-00 00:00:00
Data de Publicação:
05/05/2023
Autor:
João de Freitas
Chegada ao Arquipélago:
2023-05-05
Proprietário da Peça:
Câmara Municipal do Funchal
Proprietário da Imagem:
Câmara Municipal do Funchal
Autor da Imagem:
Câmara Municipal do Funchal
Cartela com cabras da porta do Matadouro Municipal, João de Freitas, Funchal, 1940, ilha da Madeira.

Categorias
    Descrição
    Cartela com cabras da porta do Matadouro Municipal.
    Com placa no interior em ferro forjado e pintado:
    João de Freitas com Serralharia Mecânica Rua do Castanheiro N.º 55, Funchal, Madeira.
    Os candeeiros da Ponte do Mercado, no entanto, registam: João de Freitas com serralharia mecânica e fundição, Rua dos Ferreiros, 176, Funchal, Madeira.
    Projeto geral dos arquitetos António Couto Martins (1887-1970) e Miguel Simões Jacobetty Rosa (1901-1970), 1938 a 1940
    Fotografia da Câmara Municipal de 2015.
    Campo da Barca, Freguesia de Santa Luzia, Funchal, ilha da Madeira.

    O novo Matadouro Municipal de 1940
    A gestão da cidade do Funchal tinha sido entregue a 12 de janeiro de 1935 ao jovem Fernão de Ornelas Gonçalves (1908-1978), que imprimiu à cidade toda uma outra dinâmica, levando a efeito uma verdadeira revolução urbanística, que se tornaria verdadeiramente mítica. Nesse quadro, logo a 8 fevereiro de 1935 enviava um ofício-memorandum ao presidente da Junta Geral, então João Abel de Freitas (1893-1948), cargo para que fora nomeado na mesma altura, a 14 de janeiro desse ano, dando-lhe conhecimento das necessidades mais prementes do concelho do Funchal, nomeadamente a construção de um novo Matadouro Municipal. Refere o documento, que o matadouro existente na foz da ribeira de Sta. Luzia “construído há mais de oitenta anos não corresponde às necessidades presentes da população do concelho. Ficava situado no centro da cidade, “oferecendo um aspeto desagradável não só aos residentes, mas também ao grande número de turistas que nos visitam anualmente”, pelo que a sua deslocação se tornava “uma necessidade inadiável”, para “o bem da saúde pública e bom nome desta terra”. Calculava então a Câmara que “a construção dum Matadouro incluindo compra de terreno e todos os apetrechos necessários ao seu bom funcionamento deve orçar por cerca de mil e quinhentos contos” (leitura do Dr. J.C. Dória)
    A opção da implantação foi para a encosta da Morro da Pena, na freguesia de Santa Luzia, frente ao Campo da Barca, onde se encontrava uma Fábrica de Manilhas, expropriada em 1938 e na plataforma da antiga muralha da cidade de Mateus Fernandes (III) (c. 1520-1597), de 1575 (c.). O projeto foi entregue aos arquitetos António Couto Martins (1887-1970), que assina a Memória Descritiva, já com obra feita em Lisboa e que, com o Eng. Félix do Amaral, seria depois autor do novo Estádio dos Barreiros, inaugurado a 5 de maio de 1957 e Miguel Simões Jacobetty Rosa (1901-1970), também com obra reconhecida e de um edifício com o Prémio Valmor, em Lisboa, em 1931, que nos anos seguintes assumiria o projeto do Estádio Nacional do Jamor, inaugurado a 10 de junho de 1944. O orçamento do novo Matadouro fora aprovado no final daquele ano de 1938, com cerca de 22 propostas, sendo adjudicado a João Pinto Correia Segundo, empreiteiro que na mesma data executava o edifício do Banco de Portugal, projetado por Edmundo Tavares (1892-1983), também autor dos projetos do Mercado dos Lavradores e do Liceu Jaime Moniz. Segundo a memória descritiva assinada pelo arq. Couto Martins (ARM, PT/ABM/CMFUN/L-C/030/00007, cota 4017), o projeto teve por base o declive do terreno, com todas as salas pensadas de forma a facilitar o funcionamento do abate do gado e posterior tratamento das carnes, optando-se por uma solução vertical que permitia economizar tempo, força e espaço nas futuras funções do matadouro. A zona de abate foi instalada no andar superior e as arcas frigoríficas, no inferior, entrando o gado pelo lado mais alto do terreno e os produtos finais da matança a saírem depois pela zona mais baixa.
    O projeto foi executado em cerca de dois anos, tendo as fundações começado a ser abertas em janeiro de 1939 (ARM, Coljor, DN, 10 jan. 1939, p. 4) e o trabalho tido a direção técnica de Filipe Rodrigues da Silva Castanheta (1901-1989), chefe da repartição de Obras Públicas, sendo o Matadouro inaugurado no início da tarde de 24 de novembro de 1940, onde foi serviço o almoço, no mesmo dia do Mercado Municipal e do cruzeiro monumental do Pico dos Barcelos, iniciativa do vereador Dr. William Edward Clode (1900-1980). Procedeu às inaugurações o Dr. Augusto da Silva Branco Camacho (1907-1991), natural da Ponta do Sol, servindo de governador civil, estando presente o presidente da câmara do Funchal, Dr. Fernão Ornelas (1908-1978), o presidente da Junta Geral, Dr. João Abel de Freitas (1893-1948), o tenente-coronel Francisco Silvestre Varela (1883-1969), governador militar e o cónego magistral Manuel Francisco Camacho (1877-1970), que procedeu à bênção das instalações (ARM, Coljor, DN, 25 nov. 1940, p. 1). Algum do material de equipamento interior veio a ser fornecido pela Madeira Engineering & Company Ltd. (Arsenal Blandy Brothers e Co.), como o caso dos elevadores (em ago. 1940 referidos como descensores) e, pensamos que também, por seu intermédio, os materiais do novo complexo de refrigeração, com compressores da Prestcold Refrigeration (Pressed Steel Company Ltd., Cowley Oxford England), reformulado 20 anos depois. O complexo sistema de transporte das carcaças deve ter sido adquirido às fábricas da Fundição Vulcano & Collares, em Lisboa, que funcionaram entre os séculos XIX e XX, cuja assinatura se mantém nas caixas das correias. A porta do edifício foi da autoria de uma fundição do Funchal (João de Freitas com Serralharia Mecânica (na) Rua do Castanheiro N.º 55), com obra dispersa pela cidade, onde figuram representações dos animais ali a abater: bois, vacas e novilhos, porcos, cabras, ovelhas e cavalos, que, ao que tenhamos informação, poucas vezes teria ocorrido, faltando os pequenos roedores, como os coelhos, ali também depois abatidos e que, em princípio, não foram inicialmente previstos.
    O Matadouro foi aumentado dois anos mais tarde com um tabuleiro de limpeza dos debulhos, assim como houve a modificação da caixa do elevador e a instalação de um deposito de água com a capacidade de 500 litros. Nos anos 60 existindo a necessidade de criar junto à Ribeira de João Gomes uma Feira de Gado, o que nesses anos ocorreu um pouco por toda a Ilha, embora aqui nunca tenha chegado a ocorrer, foi adquirido terreno para Norte, tal como foram instalados novos frigoríficos no edifício, cujas plantas de implantação de 1968 e 1969 chegaram até nós (PT/ABM/CMFUN/L-C/030/00006), como alguns dos pormenores da maquinaria e mobiliário utilizados, que depois se preservaram como memória.
    Nas décadas seguintes, entretanto, o Matadouro Municipal passou à tutela da Junta Geral, a 26 de novembro de 1974, depois do Governo Regional e, com a transferência do então Centro de Abate da Região para o Santo da Serra, em 2004, a Câmara Municipal do Funchal voltou à posse do edifício. Alvitrando-se várias hipóteses, a reabilitação do edifício como centro cultural e de investigação na área das novas tecnologias teve início em 2020.