Image
Arquipelago de Origem:
Lisboa (cidade)
Data da Peça:
2020-06-08
Data de Publicação:
23/11/2025
Autor:
Visão
Chegada ao Arquipélago:
2025-11-23
Proprietário da Peça:
Visão
Proprietário da Imagem:
Visão
Autor da Imagem:
Visão
António Ferro, o Génio na sombra de Salazar, capa da revista Visão, Lisboa, 8 de junho de 2020, Portugal

Categorias
    Descrição
    António Ferro, o Génio na sombra de Salazar
    (1895-1956) e (1889-1970)
    que inventou o Galo de Barcelos e as Marchas Populares
    Capa da revista Visão, Lisboa, 8 de junho de 2020, Portugal

    António Ferro
    (Lisboa, 1895; idem. 1956) com apenas 19 anos foi editor da revista Orfheu, responsabilidade para que foi escolhido por Fernando Pessoa (1888-1935) precisamente por ser ainda menor. Foi jornalista nos diários O Jornal, 1915, dirigido por Boavida Portugal e no qual também colaborou Fernando Pessoa, O Século e Diário de Notícias, dirigindo a revista Ilustração Portuguesa e fundando depois a revista Panorama. Em 1921 publicou o manifesto modernista Nós, tendo ainda colaboração na revista Alma Nova, começada a editar em Faro em 1914. Simpatizante do fascismo, fascinado por Benito Mussolini (1883-1945) e pelos regimes autoritários da época, viria a escrever um trabalho, em 1926 e editado no ano seguinte, Viagem à Volta das Ditaduras, com prefácio de Filomeno da Câmara de Melo Cabral (1873-1934), tendo sido ele quem sugeriu a Salazar (1889-1970) a criação de um organismo que fizesse propaganda aos feitos do regime, sob o lema Política do Espírito, altura em que publica uma conjunto de entrevistas com Salazar: Salazar, o Homem e a Obra, 1933. Esse organismo chamou-se, a partir de 1933, Secretariado de Propaganda Nacional até ao final da II Grande Guerra, quando passou a chamar-se Secretariado Nacional de Informação, ou SNI. Através deste organismo articularam-se as áreas do espetáculo, jornalismo, turismo e as atividades culturais em geral ligadas ao Estado Novo, sendo Ferro comissário-geral das exposições internacionais de Paris (1935) e de Nova Iorque (1938), sendo fundador do Museu de Arte Popular, das Pousadas de Portugal, da Sociedade Portuguesa de Autores, do Círculo Eça de Queiroz e do Grupo de Bailado Verde Gaio, e presidente da Emissora Nacional (1941). António Ferro, dirigiu aquele organismo até 1949, quando partiu, ou foi forçado a partir, para a legação portuguesa em Berna.
    Foi o mestre da propaganda moldou a imagem do Estado Novo. Inventou o Galo de Barcelos e as marchas populares, lançou Amália e Manoel de Oliveira, criou as bases do turismo, levou Portugal às exposições internacionais e tirou o "vermelho" do Benfica. Em novembro de 1930, num corredor dos escritórios do Partido Nacional-Socialista, em Munique, o ex-cabo Adolf Hitler é interpelado por um atrevido repórter português que o cumprimenta, o fotografa e lhe oferece o exemplar de um livro de entrevistas da sua autoria. O já emergente político populista alemão responde-lhe, em francês, a três perguntas. No dia 23 desse mês, o Diário de Notícias puxa à primeira página, a letras gordas, a “Agitada e sensacional entrevista com Adolf Hitler”. Nela, o enviado especial do jornal à Alemanha, o jornalista António Ferro, que, embora tivesse apenas 35 anos, já privara com os chefes das ditaduras modernas, de Primo de Rivera (Espanha) a Benito Mussolini (Itália) e a Kemal Ataturk (Turquia) – dos quais possui fotografias autografadas, como é uso na época –, gasta cerca de 18 mil carateres para reproduzir declarações de Hitler que não ocupam mais de 800 carateres. A “sensacional entrevista” não passava, afinal, de uma interpelação apressada, feita de pé, num corredor. António Ferro usa de todo o seu engenho para contar a história atribulada de como conseguiu chegar à fala com o grande homem. Visto a olho nu, dir-se-ia que se trata de um embuste, uma vigarice do jornal que vende gato por lebre, à imagem de tantas outras “entrevistas” que o repórter já tinha no currículo e que foram obviamente penteadas pela sua própria imaginação. Mas, analisado retrospetivamente, todo o ambiente surrealista e, ao mesmo tempo, inquietante, que rodeia o futuro ditador alemão, se sente como se nós estivéssemos lá. Do assessor de opereta Ernest Hanfstaengl ao Café Keck, dos “camisas castanhas”; do improvável Hoffmann, o “fotógrafo oficial” do futuro Führer, com o estúdio cheio de fotos do líder que se vendem como santinhos, ao “ajudante impecável” de Hitler, “feito de uma só peça, de uma peça de artilharia”; do clima de bas-fond político ao inquietante militarismo subterrâneo e larvar – tudo é captado pela pena do jornalista. À ironia de António Ferro, que não deixa pedra sobre pedra do exótico interlocutor, não escapam os passos “militares” – que, logo a seguir, emenda para “militaristas”… – de Hitler, quando este se aproxima. Nem os seus “alucinantes olhos azuis, o bigodinho à Charlot, o nariz que arremete”. Nem o seu ar de “boneco de loiça, como uma faiança de Copenhaga ou de Viena”. Nem a forma como se afasta, “um, dois, um, dois, como se já estivesse a partir para a guerra”. No título, embora sem surpresa de conteúdo, traz uma caixa mundial, visto estar entre aspas, como uma ameaça direta do “boneco de loiça”, incapaz de se conformar com os termos da rendição alemã de 1918: “O Partido Nacional-Socialista é o partido da paz, mas não da paz de Versalhes.”