António Ferro, o Génio na sombra de Salazar
(1895-1956) e (1889-1970)
que inventou o Galo de Barcelos e as Marchas Populares
Capa da revista
Visão, Lisboa, 8 de junho de 2020, Portugal
António Ferro (Lisboa, 1895; idem. 1956) com apenas 19 anos foi editor da revista
Orfheu, responsabilidade para que foi escolhido por Fernando Pessoa (1888-1935) precisamente por ser ainda menor. Foi jornalista nos diários
O Jornal, 1915, dirigido por Boavida Portugal e no qual também colaborou Fernando Pessoa,
O Século e
Diário de Notícias, dirigindo a revista
Ilustração Portuguesa e fundando depois a revista
Panorama. Em 1921 publicou o manifesto modernista
Nós, tendo ainda colaboração na revista
Alma Nova, começada a editar em Faro em 1914. Simpatizante do fascismo, fascinado por Benito Mussolini (1883-1945) e pelos regimes autoritários da época, viria a escrever um trabalho, em 1926 e editado no ano seguinte,
Viagem à Volta das Ditaduras, com prefácio de Filomeno da Câmara de Melo Cabral (1873-1934), tendo sido ele quem sugeriu a Salazar (1889-1970) a criação de um organismo que fizesse propaganda aos feitos do regime, sob o lema
Política do Espírito, altura em que publica uma conjunto de entrevistas com Salazar:
Salazar, o Homem e a Obra, 1933. Esse organismo chamou-se, a partir de 1933,
Secretariado de Propaganda Nacional até ao final da II Grande Guerra, quando passou a chamar-se Secretariado Nacional de Informação, ou SNI. Através deste organismo articularam-se as áreas do espetáculo, jornalismo, turismo e as atividades culturais em geral ligadas ao Estado Novo, sendo Ferro comissário-geral das exposições internacionais de Paris (1935) e de Nova Iorque (1938), sendo fundador do Museu de Arte Popular, das Pousadas de Portugal, da Sociedade Portuguesa de Autores, do Círculo Eça de Queiroz e do Grupo de Bailado Verde Gaio, e presidente da Emissora Nacional (1941). António Ferro, dirigiu aquele organismo até 1949, quando partiu, ou foi forçado a partir, para a legação portuguesa em Berna.
Foi o mestre da propaganda moldou a imagem do Estado Novo. Inventou o Galo de Barcelos e as marchas populares, lançou Amália e Manoel de Oliveira, criou as bases do turismo, levou Portugal às exposições internacionais e tirou o "
vermelho" do Benfica. Em novembro de 1930, num corredor dos escritórios do Partido Nacional-Socialista, em Munique, o ex-cabo Adolf Hitler é interpelado por um atrevido repórter português que o cumprimenta, o fotografa e lhe oferece o exemplar de um livro de entrevistas da sua autoria. O já emergente político populista alemão responde-lhe, em francês, a três perguntas. No dia 23 desse mês, o
Diário de Notícias puxa à primeira página, a letras gordas, a “
Agitada e sensacional entrevista com Adolf Hitler”. Nela, o enviado especial do jornal à Alemanha, o jornalista António Ferro, que, embora tivesse apenas 35 anos, já privara com os chefes das ditaduras modernas, de Primo de Rivera (Espanha) a Benito Mussolini (Itália) e a Kemal Ataturk (Turquia) – dos quais possui fotografias autografadas, como é uso na época –, gasta cerca de 18 mil carateres para reproduzir declarações de Hitler que não ocupam mais de 800 carateres. A “sensacional entrevista” não passava, afinal, de uma interpelação apressada, feita de pé, num corredor. António Ferro usa de todo o seu engenho para contar a história atribulada de como conseguiu chegar à fala com o grande homem. Visto a olho nu, dir-se-ia que se trata de um embuste, uma vigarice do jornal que vende gato por lebre, à imagem de tantas outras “entrevistas” que o repórter já tinha no currículo e que foram obviamente penteadas pela sua própria imaginação. Mas, analisado retrospetivamente, todo o ambiente surrealista e, ao mesmo tempo, inquietante, que rodeia o futuro ditador alemão, se sente como se nós estivéssemos lá. Do assessor de opereta Ernest Hanfstaengl ao Café Keck, dos “
camisas castanhas”; do improvável Hoffmann, o “f
otógrafo oficial” do futuro Führer, com o estúdio cheio de fotos do líder que se vendem como santinhos, ao “
ajudante impecável” de Hitler, “
feito de uma só peça, de uma peça de artilharia”; do clima de
bas-fond político ao inquietante militarismo subterrâneo e larvar – tudo é captado pela pena do jornalista. À ironia de António Ferro, que não deixa pedra sobre pedra do exótico interlocutor, não escapam os passos “
militares” – que, logo a seguir, emenda para “
militaristas”… – de Hitler, quando este se aproxima. Nem os seus “a
lucinantes olhos azuis, o bigodinho à Charlot, o nariz que arremete”. Nem o seu ar de “
boneco de loiça, como uma faiança de Copenhaga ou de Viena”. Nem a forma como se afasta, “um, dois, um, dois, como se já estivesse a partir para a guerra”. No título, embora sem surpresa de conteúdo, traz uma caixa mundial, visto estar entre aspas, como uma ameaça direta do “
boneco de loiça”, incapaz de se conformar com os termos da rendição alemã de 1918: “
O Partido Nacional-Socialista é o partido da paz, mas não da paz de Versalhes.”