Cadeira de soba Tchokwe, Angola, 1890 (c.), Museu Carlos Machado, Ponta Delgada, ilha de São Miguel, Açores
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Descrição
Cadeira de soba Tchokwe
Chokwe Chief's Chair, chitwamo ca mangu or njunga
Madeira entalhada e patinada, com tampo em pele, 115 x 47 x 44 cm.
Dada como recolhida pelo almirante Craveiro Lopes, final do século XIX, 1890 (c.)
Infelizmente, os dados que possuímos para a família Craveiro Lopes são para vários oficiais generais do Exército, ao longo de 3 ou 4 gerações, mas não da Armada
Museu Carlos Machado (Inv. 15005), Ponta Delgada, ilha de São Miguel, Açores.
Cadeira com espaldar rematado por travessa com quatro mukixis com máscaras Cikunza, patrono da mukanda e máscaras Cihongo, do ancestral masculino que se repetem como remate nas pilastras laterais. Não conseguimos identificar a representação da travessa média, que podem representar escravos, ou dançarinos e a inferior, com o que parecem ser 2 chefes e duas mulheres. As travessas da base do assento apresentam as normais cenas do quotidiano. Os chefes africanos sentavam-se tradicionalmente em bancos, mas com a chegada dos portugueses, especialmente comerciantes e quase sempre nestas cadeiras representados a cavalo, os régulos locais começaram a sentar-se em cadeiras como os Europeus para confirmarem o seu estatuto social e político.
Os Chokwe, beneficiando do comércio de marfim, borracha, cera e escravos africanos, emergiram ao longo do século XIX na savana da atual República Democrática do Congo e Angola tornando-se parceiros comerciais ativos com os comerciantes da Europa e do Novo Mundo. Como importantes governantes regionais, o seu prestígio e poder reflete-se na arte que encomendavam para as suas cortes, como as esculturas dos seus antepassados, as cadeiras em que se sentavam para receber os comerciantes europeus, ou as máscaras para os seus ritos de passagem, onde se definia a coesão social. O ancestral dos Chokwe é o herói cultural Chibinda Ilunga, lendário caçador, em princípio, Luba e que tendo casado com a rainha Lunda Lueji A'Nkonde (c. 1635- c. 1670), deram origem ao reino Chokwe, que se separa assim do velho reino Lunda. A sua história em Angola foi levantada pelo general Henrique Augusto Dias de Carvalho (1843-1909), Expedição portuguesa ao Muatian vua (1884-1888). Ethnographia e historia tradicional dos povos da Lunda, 1890, mas a divulgação da sua escultura ficou a dever-se, especialmente, à investigadora Marie-Louise Bastin (1918-2000), La Sculpture Tshokwe, Paris, Alain et Françoise Chaffin, 1982. Este trabalho nasceu da constituição do Museu do Dundo, a partir de 1936, na sede da então Companhia de Diamantes de Angola (Diamang), que convidou esta investigadora da Universidade Livre de Bruxelas e colaboradora do Musée Royal de l'Afrique Central, geralmente designado como Museu de Tervuren, a partir de 1961, a permanecer algum tempo naquele museu. Veio assim a nascer o reconhecimento internacional da Arte Chokwe como uma das mais refinadas escolas de escultura subsarianas e, quase em paralelo com a corte do Benim, atingindo as suas peças os mais altos preços nos mercados internacionais de arte.
Esta cadeira pertenceu a um chefe da tribo Tchokwe (Nordeste de Angola). Trata-se de uma peça emblemática da coleção de Etnografia Africana do Museu, proveniente do acervo recolhido pelo Almirante Craveiro Lopes, nos finais do século XIX. Os Tchokwe estabeleceram-se na zona oriental de Angola, por volta de 1750. Atualmente com cerca de 5500000 indivíduos, os Tchokwe representam 5% da população angolana. Mais do que uma obra de arte, e para além das suas evidentes qualidades estéticas, esta cadeira tem um significado religioso, social e político. Em África, a cadeira constitui o elemento mais importante do mobiliário. Neste caso, como em tudo o que está relacionado com a etnografia africana, o nosso olhar ocidental deve ter em conta as crenças e as conceções do mundo da cultura Tchokwe. A relevância da cadeira aqui ilustrada deve, pois, ser entendida no seu contexto, sem descurar, no entanto, o notável espírito de observação e de criação, próprios da arte naturalista da tribo em questão. Anne Stichelmans [AS] (Ficha do Museu)