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Arquipelago de Origem:
São Miguel (Açores)
Data da Peça:
Data de Publicação:
15/12/2025
Autor:
Movimento de Romeiros de São Miguel
Chegada ao Arquipélago:
2025-12-15
Proprietário da Peça:
Câmara Municipal de Ponta Delgada
Proprietário da Imagem:
Um Olhar Povoacense
Autor da Imagem:
Um Olhar Povoacense
Exposição itinerante Símbolos Identitários do Romeiros I – Bordões e Cevadeiras, Centro Cultural e Auditório Municipal da Povoação, 2 de fevereiro de 2016, ilha de São Miguel, Açores.

Categorias
    Descrição
    Exposição itinerante Símbolos Identitários do Romeiros I – Bordões e Cevadeiras
    Iniciativa do Movimento de Romeiros de São Miguel e produção da Câmara Municipal de Ponta Delgada, dezembro de 2015.
    Cartaz da edição da Povoação, Centro Cultural, de 27 de janeiro a 2 de fevereiro de 2016.
    Estiveram em exposição cerca de 100 bordões e cerca de 30 a 40 cevadeiras.
    Fotografia de Um olhar Povoacense, Centro Cultural e Auditório Municipal da Povoação, 2 de fevereiro de 2016.
    Câmara de Ponta Delgada, ilha de São Miguel, Açores.

    De referir que a religiosidade em toda a essência do povo açoriano. Todos os anos, ranchos de homens saem à rua para honrar esse compromisso de fé, nas tradicionais Romarias da Quaresma e durante seis semanas. Cada rancho percorre os caminhos da ilha de São Miguel durante uma semana, parando nas ermidas e nas igrejas. Estima-se que os Romeiros parem em 100 lugares diferentes. Tradição com cerca de 500 anos, a Romaria assume-se como uma espécie de viagem interior. Ser romeiro, entre os açorianos é um modo de vida, uma forma de ser e de estar na vida de todos os dias, atento ao que se passa à sua volta, sempre pronto a auxiliar e a dar o verdadeiro testemunho do amor de Cristo.
    O Bordão é um dos 4 Símbolos Identitários dos Romeiros e, segundo reza a História, existe desde o aparecimento das Romarias Quaresmais de São Miguel. Tradicionalmente, é feito de madeira e envernizado. No entanto, existem noutros materiais, dando especial destaque a alguns Bordões dos tempos áureos da baleação em São Miguel, feitos em osso de baleia. Nas zonas não povoadas e mais íngremes, auxilia o Romeiro na caminhada e nas zonas povoadas é transportado na horizontal sempre do lado de dentro do Rancho. O Bordão fica sempre junto às entradas das Igrejas e Ermidas e à noite aquando da pernoita, tradicionalmente fica na vertical atrás da porta da entrada da casa.
    A Cevadeira ou Saca de Romeiro tradicionalmente é feita de pano, com duas alças para ser transportada nas costas. As mais tradicionais são feitas de retalhos de variadas cores e padrões e servem para os Romeiros transportarem a roupa e alguma comida para os 8 dias de caminhada. As Cevadeiras vão sob o Xaile, de forma a tentar proteger o mais possível o que vai dentro dela e permitir uma melhor moldagem da mesma ao corpo do Romeiro. O Romeiro, geralmente coloca a Cevadeira nas costas em cada madrugada quando inicia a caminhada, somente a retirando nas refeições e no final de cada dia, quando as famílias os reabastecem, sendo um dos adereços obrigatórios.
    A prática “Romeiros de São Miguel”, também denominada de romarias quaresmais - outrora designada por Visita às Casinhas de Nossa Senhora - constitui um fenómeno etnográfico de grande interesse, pela originalidade de certos elementos que lhe são inerentes, bem como pela sua persistência ao longo dos séculos. Catástrofes naturais ocorridas nos séculos XVI e XVII, com destaque nos terramotos de 1522 e 1563 e numa das maiores erupções vulcânicas da ilha, em 1630, são acontecimentos na origem desta prática. Com a passagem do tempo, as romarias mistas passaram a ser realizadas somente por homens num tempo delimitado, o da Quaresma. Neste período, os Romeiros de São Miguel, organizados em ranchos por localidades, visitam a pé o maior número de Igrejas e Ermidas da ilha, cantando e rezando. O cumprimento de uma promessa, o agradecimento por uma graça recebida, a penitência, a curiosidade, o desafio e o desejo de transcendência são motivações principais desta manifestação de fé.
    Cada rancho é composto por um Mestre, Contramestre, Procurador das almas, Lembrador das almas, dois Guias, um Cruzado, um ou mais Despenseiros e Ajudantes. Os ranchos de romeiros são heterogéneos em termos etários, otimizando a transmissão de geração em geração, sendo muito interessante a alta percentagem de rapazes bastante novos em tudo trajando como os mais velhos e aos quais, geralmente, cabe o transporte de crucifixos de parede ou de pousar. Existem no total 54 freguesias (2023) com ranchos de romeiros na ilha de São Miguel, aos quais se juntam dois ranchos vindos de duas freguesias da Diáspora: Santa Maria e São Mateus de Toronto, Canadá. O xaile, o lenço, o bordão, a saca ou cevadeira e o terço do Romeiro são as insígnias principais que constituem a identidade do Romeiro de São Miguel. A romaria inicia-se a um sábado e termina no sábado seguinte ou começa no domingo e termina no domingo seguinte. No dia da saída do rancho, antes do alvorecer, os romeiros dirigem-se à igreja principal da freguesia onde é celebrada a “missa da despedida”. A celebração finda com o cântico do “Adeus”, momento em que as famílias se despedem dos romeiros. É neste espírito de união e fraternidade que os romeiros percorrem as estradas, caminhos e veredas da ilha durante oito dias, em etapas diárias de 35 a 40 quilómetros, que perfazem um total de 280 a 300 quilómetros. O percurso é sempre feito no sentido dos ponteiros do relógio, ou seja, tendo o mar à sua esquerda.
    As Romarias Quaresmais têm a sua expressão máxima na ilha de São Miguel, mas também já se realizam nas ilhas Terceira, Graciosa e Santa Maria, assim como na Diáspora (Canadá e Estados Unidos da América). Destacam-se ainda as romarias infantojuvenis realizadas por escolas, com um percurso que dura uma tarde, e as romarias femininas das ilhas de São Miguel e Terceira, que desde 2004 fazem um dia de caminhada. Considerada até meados do século XX uma prática marginal, realizada fora do contexto religioso e institucional devido à imagem de “parente pobre de cultura”, a manifestação “Romeiros de São Miguel” é desde 2025 reconhecida oficialmente como um fenómeno ímpar do património cultural e religioso da Região Autónoma dos Açores, assim inscrito nas listas nacionais e proposto para inscrição como Património Imaterial pela Unesco.