Igreja velha de São Sebastião do Caniçal, dezembro de 1750, Largo de São Sebastião, Caniçal, ilha da Madeira.
Categorias
Descrição
Igreja velha de São Sebastião do Caniçal.
Reconstrução de 1749 a 1750.
Fotografia de Anabela Gomes, 2025.
Sitio da Igreja Velha, Largo de São Sebastião, Caniçal, ilha da Madeira.
Em 1527, foi criada uma capelania no Caniçal, onde já havia uma ermida dedicada a São Sebastião, fundada por Garcia Moniz. Constituiu-se como sede da paróquia, com o mesmo orago, instituída em data que se desconhece, mas existente em setembro de 1564. Pelos finais do século XVI, por 1594, a capela foi ampliada e reconstruida como igreja paroquial e arruinada pelo terramoto de 1748, veio a ser construído um novo templo, cuja da primeira pedra foi lançada a 9 junho de 1749, sendo a obra benzida em 13 de dezembro de 1750, como assinala a data no empedrado, defronte do portal.
A fundação da paróquia do Caniçal justificou-se pela situação de isolamento dos seus moradores, em relação a Machico, e não pelo número de habitantes. Em 1598, a freguesia tinha apenas 8 fogos e 26 almas de confissão, ou seja, 26 maiores de 7 anos de idade. Só em 1956, um túnel ligou estas duas freguesias, verificando-se a partir daí o crescimento populacional. João Teixeira, terceiro filho de Tristão, o primeiro capitão de Machico, teve uma coutada no Caniçal, de muita caça de coelhos, perdizes, pavões, porcos e javalis, que foi elogiada e protegida pelo rei D. Manuel I. O Caniçal sempre se ressentiu da aridez do solo e da falta de água para irrigação. Nos meados do século XX, a Comissão Administrativa dos Aproveitamentos Hidráulicos da Madeira construiu a Levada do Caniçal, com a madre na Fonte Vermelha, no sítio dos Maroços da freguesia de Machico, possibilitando o desenvolvimento de culturas agrícolas. Já Gaspar Frutuoso, em 1584, no Livro Segundo das ‘Saudades da Terra’, mencionou uma levada «para se regarem canas-de-açúcar desta vila [Machico] e para o Caniçal» (Cap. XIV). A povoação foi elevada a vila em 1994, pelo Decreto Legislativo Regional n.º 19/94/M, de 9 de setembro.
A nova igreja, projetada pelo arquiteto João Francisco Caires e inspirada no templo de Marco de Canaveses, de Siza Vieira, foi benzida em 5 de dezembro de 1999. O Governo Regional da Madeira contribuiu com 560 mil contos para a obra, impulsionada pelo padre José Pereira (1938-2022). Tão importante verba, que suportou financeiramente, na íntegra, a construção, levou o bispo, D. Teodoro de Faria (1930-2025), a proferir, na inauguração, rasgado elogio a Alberto João Jardim: «Com a sua magnanimidade, o sr. presidente do Governo da Região Autónoma da Madeira mostrou como se serve um povo, tornando-se, a todos os títulos, um benfeitor do Caniçal.»
Anualmente, no terceiro fim de semana de setembro, realiza-se a festa de Nossa Senhora da Piedade. Os pescadores e armadores da freguesia organizam uma concorrida procissão que, no sábado, conduz, por terra e por mar, a escultura da Senhora da Piedade, desde a sua capela, situada no Pico da Piedade ou Monte Gordo, até à igreja paroquial da vila, e no domingo regressa ao seu templo. Apesar de não ser o orago desta freguesia, que é São Sebastião, é a festa religiosa mais importante do Caniçal.
O primeiro farol das então denominadas «ilhas adjacentes» surgiu no Ilhéu de Fora, na Ponta de São Lourenço, zona de alguns naufrágios. O farol de São Lourenço foi mandado construir em finais de 1866 e começou a funcionar em 30 de setembro de 1870. Outra importante infraestrutura desta freguesia, no âmbito das comunicações, foi a estação de telegrafia sem fios de grande potência, instalada no sítio da Alagoa e aberta em 4 de novembro de 1926. A operação, desencadeada pelo governo português para sufocar a «Revolta da Madeira, de 1931», elegeu o Caniçal como lugar estratégico para os primeiros ataques aéreos em 26 de abril, desmantelamento da estação telegráfica e desembarque das forças militares da Ditadura, que puseram fim ao movimento revolucionário. Na marcha para Machico, as tropas governamentais contaram com a ajuda do pároco do Caniçal, o padre Carlos Martins, que as guiou na vereda íngreme que ligava as duas freguesias.
Em 1988, iniciou-se a construção do Parque Industrial da Zona Franca da Madeira, que atualmente integra o Centro Internacional de Negócios da Madeira. Como terminal de apoio à Zona Franca Industrial, foi construído o Porto do Caniçal, cujas obras se iniciaram em 1994. Em 27 de outubro de 2005, atracou, neste porto, o primeiro navio porta-contentores, denominado «Apolo». No Caniçal, encontra-se o Museu da Baleia, criado em fevereiro de 1990, por deliberação da Câmara Municipal de Machico. De início, funcionou no antigo mercado do peixe. Desde setembro de 2011, ocupa um moderno edifício, concebido pelo arquiteto João Pedro Silva Vieira, do atelier ‘Espaço Cidade Arquitetos’. O projeto museológico tem, como principal objetivo, a preservação da memória da caça à baleia no arquipélago da Madeira. Esta atividade teve particular significado no Caniçal, onde em 1944 se estabeleceu a Empresa Baleeira do Arquipélago da Madeira. A baleação, nesta Região, terminou em 1981.
Nelson Veríssimo, “Freguesias da Madeira: Caniçal”, Funchal Notícias.net, 26 de outubro de 2025.