Comentários aos princípios e fundamentos da arte de marear, Ahmad Ibn Majid, cópia de Damasco (Síria), 1926, Library of Congress, Washington, Estados Unidos da América
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Comentários aos princípios e fundamentos da arte de marear
Ahmad Ibn Majid (The Lion of the Sea, Julfar, Ras al-Khaimah, c. 1435-c. 1500), c. 1480
Manuscrito sobre papel 20 × 10 cm., cópia de Damasco (Síria), 1926
Navegado, cartógrafo e poeta, que teria ajudado Vasco da Gama (1469-1524) a encontrar o caminho marítimo para a Índia em 1498, segundo a tradição de Ras al-Khaimah.
Library of Congress (Call Number VK551.A46, fol. 31v), Washington, Estados Unidos da América
Pub. in Os Portugueses no Golfo, 1507–1650, uma história interligada, The Portuguese in the Gulf, 1507–1650, an interlinked history, catálogo de exposição na Feira do Livro do Emirado de Sharjah, Emirados Árabes Unidos, 1–12 novembro 2023, com coordenação científica de José Pedro Paiva e Roger Lee de Jesus, apresentação/introdução de Ahmed Bin Rakkad Al Ameri, presidente da Sharjah Book Authority, Centro de História de Sociedade e Cultura da Universidade de Coimbra, Imprensa da Universidade, março de 2023, nº 5, pp. 22 e 27.
«A melhor medição tomada através da experiência é a dela [i.e., Sillibār] e de Suhayl. Não fosse por Sillibār e a sua medição com Vega ou Suhayl, e o navegador não se governaria».
Até ao final do século XV, desenvolveram-se nos oceanos Atlântico e Índico duas formas de navegação astronómicas relativamente independentes. Se se compararem textos náuticos portugueses e árabes anteriores à chegada de Vasco da Gama à Índia, é possível encontrarem-se pontos convergentes e divergentes. Entre os pontos convergentes está, por exemplo, o cálculo da latitude através da Polar e das Guardas. Entre os divergentes, destaca-se o número de estrelas usado em cada prática de navegação. Enquanto textos como os guias náuticos de Munique e Évora apresentam um número relativamente reduzido, os árabes mencionam aproximadamente 150 estrelas, asterismos ou objectos celestes.
O cenário muda ligeiramente com a chegada dos portugueses ao oceano Índico. Os livros de marinharia que começam a ser escritos logo desde o princípio do século XVI, como o de João de Lisboa, passam a incluir novas estrelas. Estrelas essas que aparecem registadas não em nomenclatura latina — como era comum na astronomia europeia —, mas com nomes árabes. As estrelas Achernar (α Eridanus) e Canopus (α Carinae), mencionadas por João de Lisboa como Solibar e Soel respectivamente, são um dos melhores exemplos: «(…) quando navegais da parte do sul, é necessário que tenhais conhecimento das estrelas, scilicet, das Soel e Solibar, as que são mais propínquas ao polo.»
Sillibār (i.e., Alpha Eridani, Achernar) é uma estrela particular em história da astronomia porque foi a única de primeira magnitude ignorada tanto por Ptolomeu como por al-Ṣūfī — autores dos catálogos mais influentes da Idade Média. Acredita-se que nenhum destes dois astrónomos a poderia ter visto diretamente a partir dos lugares onde viviam, uma vez que esta se encontrava demasiado a sul. A primeira vez que aparece registada num catálogo europeu parece ter sido só sem em 1603, na Uranometria de Johann Bayer. Procurando em contextos mais práticos de astronomia, no entanto, Achernar é conhecida desde a Antiguidade por árabes beduínos no deserto e por navegadores do Oceano Índico. Os beduínos chamavam-na al-Muḥannith, enquanto Sillibār parece ter sido usado exclusivamente em literatura náutica. Foi por esse nome — ‘Solibar’ — que João de Lisboa mencionou Achernar, 89 anos antes de Bayer. Mencionou-a juntamente com Suhayl provavelmente porque — como Ibn Mājid apontava – era uma das melhores medições retirada através da experiência.
Não se sabe ao certo onde e como é que João de Lisboa e o piloto Pedro Anes terão aprendido a calcular a latitude sul com Achernar e Canopus. Provavelmente não terão lido nenhum dos textos de Ibn Mājid. Não precisavam. As técnicas e práticas de navegação que o muʿallim descreveu em verso e prosa estavam intrínsecas na prática quotidiana dos pilotos do Oceano Índico — com quem os navegadores portugueses interagiam constantemente.
Aḥmad ibn Mājid ou, pelo seu nome completo, Ḥājj al-Ḥaramayn al- Sharīfayn Shihāb al-Dīn Aḥmad ibn Mājid ibn Muḥammad ibn ‘Amr ibn Faḍl ibn Duwayk ibn Yūsuf ibn Ḥasan ibn Ḥusayn ibn Abī Mu‘allaq al-Sa‘dī ibn Abī Rakā’ib al-Najdī, nasceu em Julfar (atual Ras al-Khaimah) na década de 1430. Ibn Mājid é bem conhecido como o mais famoso dos navegadores árabes pré-modernos, mas ele é apenas a “ponta do iceberg” de uma tradição de conhecimento náutico centenária e elusiva, recuando provavelmente até ao século XIV d.C. e com vestígios de uma tradição de conhecimento semelhante pelo século XI. Estes ma‘ālimah (pl. de mu‘allim) ou “mestres” do Mar Arábico eram de facto os detentores desse tesouro acumulado durante séculos, acerca do conhecimento de rotas, sinais, perigos e mesmo do vocabulário técnico marítimo do Oceano Índico partilhado por tantas culturas.
Graças à sua vasta obra, com cerca de trinta poemas didáticos e um extenso texto em prosa, Ibn Mājid tornou-se no mais famoso piloto veterano dessas águas — tanto que existem mesmo testemunhos de marinheiros locais do século XIX a evocarem o seu nome como uma espécie de santo padroeiro da navegação. A sua prosa, os Comentários aos princípios e fundamentos da arte de marear (Fawā’id fī uṣūl ‘ilm albaḥr wa’lqawā‘id) de Aḥmad ibn Mājid, são o mais próximo que existe a uma enciclopédia de marinharia árabe pré-moderna. Na obra de Ibn Mājid raramente se mencionam navegadores europeus em geral, e muito menos portugueses em particular, mas o excerto aqui citado transmite uma boa ideia da visão que Ibn Mājid teria acerca da navegação mediterrânea ou europeia, especialmente no seu contraste com as técnicas de navegação utilizadas no Índico. É interessante que fale sobre os ocidentais como «a gente das moradias egípcias» (ahl aldiyār almiṣrīyah): «…eles têm a bússola (qumbāṣ), e nela têm linhas, marcas para as milhas, e os rumos deles são apenas dezasseis… Nós utilizamos trinta e dois rumos… e eles são incapazes de perceber o nível que nós atingimos, enquanto nós, sim, alcançamos o nível dos conhecimentos deles e podemos mesmo navegar os seus barcos. Porque o Oceano Índico está ligado ao Oceano Atlântico (alBaḥr alMuḥīṭ) e tem um conhecimento que permanece registado em textos e nas medidas de altitude estelares (qiyās). Eles, por outro lado, não têm conhecimento de medidas de altitude estelar» (Fawā’id, 4,1).
É bem sabido que as rotas marítimas do Índico norte foram utilizadas desde a antiguidade mais remota, até mesmo desde a época imperial romana: descer ao longo do Mar Vermelho, passar pelo Mar Arábico, incluindo os portos mais importantes do Golfo, depois pela costa de Sind e seguindo por Guzerate e pela costa oeste da Índia, com rotas complementares a sudoeste, em direção à costa africana e Madagáscar. Estas são as mesmas rotas que aquelas que Ibn Mājid, Sulaymān al-Mahrī e os seus lendários mestres descreveram séculos mais tarde. A pergunta que o nosso texto coloca é: quem foram estes egípcios tão depreciados por Ibn Mājid e cujos barcos e técnicas ele conhecia tão bem? A data de composição do Fawā’id é estimada para pouco depois de 1480, ou seja, bem antes da chegada das explorações portuguesas. O mais provável é que o nome «egípcios» se referisse a barcos e navegadores mamelucos, por vezes levando mesmo navegadores e comerciantes venezianos a bordo, ou qualquer outra tripulação mediterrânea internacional — pessoas que navegavam à maneira do Mediterrâneo, sem utilizar rumos estelares. Porém, estas trinta e duas divisões do horizonte formaram a base da navegação no Indo-Pacífico desde tempos imemoriais, utilizadas pelos polinésios, o império Chola, por todas as águas do sudeste asiático e ao longo da costa oriental Indiana. O conhecimento e a utilização destes rumos iria ser espalhado mais tarde pelos pilotos árabes do Golfo e da Península, à medida que eles se tornavam os mediadores e codificadores de facto da tradição náutica multicultural do Índico. Ibn Mājid foi crucial nesta transmissão que, eventualmente, chegou à atenção dos navegadores portugueses com a chegada de Vasco Da Gama e das expedições portuguesas seguintes. Traços deste encontro e de reconhecimento mútuo das duas tradições encontram-se constantemente por toda a literatura Portuguesa da Carreira da Índia. [Juan Acevedo, Inês Bénard da Costa]