Sede da Fundação Cecília Zino, reforma de 1990 (c.), Caminho Velho da Ajuda, 8, Funchal, ilha da Madeira.
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Sede da Fundação Cecília Zino,
Reforma de 1990 (c.),
Fotografia de Floriano Franco, 2022.
Caminho Velho da Ajuda, 8, Funchal, ilha da Madeira.
As Irmãs Dominicanas têm como nome completo Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, para além de outras designações, sendo a mais comum em Portugal a de Dominicanas portuguesas. A fundação desta Ordem ocorreu em Lisboa, em 1868, por iniciativa da filha dos 3.os condes de Rio Maior, Teresa Rosa Fernanda de Saldanha Oliveira e Sousa, mais conhecida por Rosa Saldanha, cuja educação esteve a cargo do Colégio dos Inglesinhos. Um responsável desse Colégio inscreveu-a na Associação de N.ª Sr.ª dos Aflitos, onde despertou para a prática das obras de misericórdia, particularmente evidentes no cuidado que aquela associação prestava às famílias em situação de pobreza. Graças a esta experiência, e também por ter vivido numa época atribulada em que parte da população vivia na miséria, Teresa de Saldanha sentiu a necessidade de se dedicar a ajudar os mais desfavorecidos, pelo que se dispôs a trabalhar com as Irmãs de Caridade francesas, com as quais fundou, em 1859, a Associação Protetora das Meninas Pobres. A expulsão daquelas religiosas, em 1862, fortaleceu a determinação de Teresa de Saldanha de fundar em Portugal uma congregação que viesse ocupar o lugar deixado vago pelas Irmãs de Caridade. Este fator, associado à grande devoção que sentia por S. Domingos de Gusmão, em quem admirava a alegria, a disponibilidade e o espírito evangelizador, levou-a a idealizar uma nova comunidade de irmãs terceiras de S. Domingos.
Impelida por uma vontade forte, conseguiu estabelecer em Lisboa a Congregação, em 1868, na qual não ingressou, porém, de início, a fim de não desagradar mais ao seu pai, que não apreciava o seu desejo de se tornar freira. O desígnio de entrar para a vida religiosa só se concretizou em 1877 e, em 1878, era já superiora geral da nova Congregação. A Congregação conheceu então uma fase de expansão, espalhando casas por vários pontos do país, e, arrimada no seu lema – “fazer o bem sempre e onde seja possível” –, procurou cumprir a sua vocação em casas de assistência, serviço social e educação, dedicando-se sobretudo a um público jovem e feminino. Também foi chamada a acudir a necessidades sentidas em outras paragens, na Europa, na América e em África, para onde as irmãs se dirigiram a partir dos inícios do séc. XX.
Foi neste período de expansão que a Congregação se estabeleceu na Madeira, em 1953. A ideia de procurar as Dominicanas para se fixarem na Ilha começou a delinear-se em 1948, quando da visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima ao arquipélago. Nessa altura, duas jovens, de 10 e 14 anos, dirigiram-se a umas senhoras da sociedade a pedir um auxílio que acudisse à pobreza em que viviam. Tocadas, as senhoras, entre as quais pontificava Berta Pereira, tomaram a iniciativa de se dirigir a Braga, a uma casa da Congregação, a de Mons. Airosa, a fim de solicitar às irmãs a sua deslocação para a Madeira. Depois de um período de reflexão, as Dominicanas concordaram, indo estabelecer-se na Madeira em 1956. Nessa altura, instalaram-se no Abrigo de N.ª Sr.ª de Fátima, fundado por Berta Pereira e outras senhoras com o objetivo de recolher e acompanhar jovens mal encaminhadas ou, simplesmente, deixadas ao abandono. Nesta instituição, as meninas eram enviadas à escola, recebiam em casa uma educação cristã e eram preparadas para melhor enfrentar a vida. Este Abrigo manteve-se em funcionamento até 2015, momento em que as irmãs sentiram já não ser possível assumir as responsabilidades que lhe tinham sido confiadas, pedindo ao bispo autorização para fechar a casa. O prelado, se por um lado compreendeu as razões das irmãs, condescendendo com o fim da sua responsabilidade naquela instituição, por outro não desejava prescindir completamente do contributo das Dominicanas, pelo que lhes pediu que continuassem, apenas para auxiliar em trabalhos paroquiais de catequese e assistência aos doentes e necessitados, a quem visitassem e levassem consolo. As irmãs aceitaram o desafio e passaram a empregar-se nessas atividades meritórias. A estrutura do Abrigo, que cuida de adolescentes, manteve-se em funcionamento, tendo passado para a tutela da Santa Casa de Misericórdia do Funchal. Em 1953, no mesmo ano em que se fundou o Abrigo, faleceu, no Funchal, Cecília Rose Zino, uma senhora inglesa que, depois de enviuvar, decidira deixar todos os seus bens para criar uma fundação cujo objetivo, enunciado pela própria, se definia como “a alta missão de cuidar das crianças pobres” (FERNANDES, DN, 20 ago. 1989, 6). A fim de fornecer os meios necessários para que a sua fundação pudesse cumprir a função que lhe destinara, Cecília Zino afetou-lhe todas as propriedades e rendimentos que possuía, estipulando que nunca revertessem para familiares ou para pessoas vivas, e comprou um edifício onde pretendia estabelecer o espaço destinado a acolher as crianças pobres ou oriundas de famílias que as não acolhessem como deviam. O prédio que escolheu fora, anteriormente, propriedade de alemães que o tinham utilizado como hotel – o Quisisano. Com o início da Primeira Guerra Mundial, e a passagem dos bens dos Alemães para o Estado português, o edifício foi vendido a uma empresa da família Rodrigues, que rapidamente o alugou a um britânico, Reids, já proprietário de um importante hotel no Funchal, e que neste prédio abriu uma nova unidade hoteleira, a que
chamou New English Hotel, em funcionamento até 1941. Em 1949, a infraestrutura mudou novamente de proprietário, desta vez para Cecília Zino que, em testamento lavrado em 1952,
a destinou a servir os propósitos da sua fundação. Esta, porém, não começou a funcionar logo após a morte da sua instituidora, ocorrida em 1953, pois, por a mãe lhe ter sobrevivido
e gozar do usufruto dos bens, só por falecimento desta foi possível à instituição receber as primeiras crianças. Nesse mesmo ano de 1953, um segundo grupo de Dominicanas instalou
se na Madeira, precisamente para colaborar com a Fundação Zino, embora desta vez com funções um pouco distintas das que desempenhavam no Abrigo de N.ª Sr.ª de Fátima. Aqui, onde, entre 1963 e 1981 funcionou um hospital pediátrico sob os cuidados médicos do Dr. Óscar Spínola de Brito, as irmãs enfermeiras prestavam toda a colaboração ao pessoal médico e aos pequenos pacientes. A escassez que entretanto se foi fazendo sentir de enfermeiras professas, a par com o alargamento da rede pública de cuidados de saúde, que passou a responder às necessidades da população, determinaram o encerramento do hospital pediátrico afeto à Fundação. A partir de 1981, as irmãs passaram a dedicar todo o seu tempo e energia a cuidar de crianças entre os 3 e os 13/14 anos, provenientes de famílias desestruturadas, que lhes são encaminhadas pelo tribunal ou pela comissão de proteção de crianças e jovens. Na Fundação, cujo edifício sofreu obras e melhoramentos para dar resposta às novas responsabilidades, as crianças, sobretudo meninas, encontram tudo o que possam precisar para crescerem amparadas e amadas. Há dormitórios, salas de informática, salas de brincar, um pequeno auditório, uma piscina, hortas e uma capela, de modo a que às crianças nada mais falte que aquilo que as irmãs não podem disponibilizar: uma família verdadeira, unida por laços de sangue e de afeto. Entregue a quatro irmãs, e com o apoio de pessoal auxiliar diversificado, a Fundação consegue financiar-se a partir do rendimento dos bens de Cecília Zino e de outros benfeitores que, por reconhecer o mérito desta obra, a ela dedicam tempo e recursos que muito contribuem para melhorar a infância de algumas crianças desfavorecidas. Mas o papel assistencial das Dominicanas portuguesas que aqui trabalham não pode nunca ser desvalorizado, pois a entrega que de si fizeram à causa é total e evidente. A 6 de novembro de 1999, abriu-se em Portugal o processo de canonização da fundadora desta congregação portuguesa, M.e Teresa de Saldanha, que foi encerrado a 17 de novembro de 2001 e entregue em Roma a 14 de fevereiro de 2002.
Bibliog.: FERNANDES, Catanho, “Fundação Cecília Zino. ‘A alta missão de cuidar de crianças pobres’”, Diário de Notícias, Funchal, 20 ago. 1989, pp. 6-8; NICOLAU, Rita Maria,
“Dominicanas de Santa Catarina de Sena”, in FRANCO, José Eduardo et al. (dir), Dicionário Histórico das Ordens e Instituições Afins em Portugal, Lisboa, Gradiva, 2010, pp. 385-390.
Cristina Trindade