Execução do Mural de Liberdade de Ponta Delgada, Arte e Cultura de Abril, Natália Correia, setembro de 2024, ilha de São Miguel, Açores
Categorias
Descrição
Execução do Mural de Liberdade de Ponta Delgada, Arte e Cultura de Abril, Natália Correia
(1923-1993)
Homenagem à Poesia está na Rua, título dos cartazes de homenagem ao 25 de Abril de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), Paris, 1975 e à açoriana Natália Correia (1923-1993).
Mural da dupla Ruído, dos artistas Frederico Draw, Frederico Soares Campos (1988-) e Alma, Rodrigo Guinea Gonçalves (1984-), 28 de setembro e 3 de outubro de 2024.
Fotografia de Rodrigo Silva, dsmotionframes, Açoriano Oriental.
Urbanização Diogo Nunes Botelho, em São Roque, Ponta Delgada,ilha de São Miguel, Açores.
Para celebrar o 50.º aniversário do 25 de Abril de 1974, marco histórico da democratização de Portugal, a dupla Ruído, com o apoio do Turismo de Portugal, apresentou o projeto “Murais de Liberdade”, que visava criar uma série de 14 murais em diferentes cidades do país, ao longo do ano de 2024, representando temas marcantes relacionados com a Revolução dos Cravos e com a sua herança histórica, tendo o da ilha de São Miguel, nos Açores, sido executado entre , com o tema Sempre 25 de Abril e A Poesia está na Rua, dedicado à pintora Vieira da Silva (1908-1992) e à poetiza Natália Correia (1938-1993), natural de Ponta Delgada.
Natália Correia, uma importante escritora do séc. XX, nasceu em Ponta Delgada e foi jornalista, poetisa e dramaturga, grande defensora da liberdade de expressão e foi a inspiração para pintar um mural dedicado às manifestações culturais que floresceram após a Revolução dos Cravos. Antes de 1974, Portugal vivia sob um regime ditatorial que impunha severas restrições à liberdade de expressão. A censura era uma constante, afetando todas as formas de arte e cultura, desde a literatura e a música até ao teatro e ao cinema. Artistas, músicos, atores, escritores e outras figuras ligadas à cultura desempenharam um papel crucial na resistência contra a opressão, utilizando as suas obras para desafiar o regime. Uma dessas importantes figuras foi a poetisa, escritora e ativista Natália Correia, natural de Ponta Delgada, cuja voz e arte ajudaram a moldar uma nova era de liberdade cultural. Com a Revolução dos Cravos, as restrições à liberdade de expressão foram abolidas, permitindo que artistas e escritores explorassem novos temas e estilos sem receio de represálias.
Natália Correia (Fajã de Baixo, Ponta Delgada, São Miguel, 13 set. 1923; Lisboa, 16 mar. 1993), que já vira livros seus de poesia e teatro proibidos, organizou uma monumental Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Dos Cancioneiros Medievais à Actualidade, em 1966, com 552 páginas, abrangendo sete séculos e meio de versos do mais puro vernáculo, com ilustrações de Cruzeiro Seixas (1920-2020). Das cantigas de escárnio e maldizer aos experimentalismos de E. M. de Melo e Castro (1932-2020), Herberto Hélder (1930-2015) e António Aragão (1921-2008), passando por Nicolau Tolentino (1740-1811), Bocage (1765-1805), Guerra Junqueiro (1850-1923), vários anónimos, Mário Cesariny (1923-2006), Jorge de Sena (1919-1978), José Carlos Ary dos Santos (1936-1984), Luíz Pacheco (1925-2008) ou a própria Natália, cabia tudo. Acabariam em tribunal, no ano seguinte, Natália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Ary dos Santos e Luís Pacheco. Coordenadora da Arcádia, voltaria a ser processada por ter tido a responsabilidade editorial das Novas Cartas Portuguesas das 3 Marias (1972) e, nos meados e finais de 1973, trabalharia com o general António de Spínola (Estremoz, 11 abr. 1910; Lisboa, 13 ago. 1996), na revisão e depois edição do Portugal e o Futuro, que saiu em fevereiro de 1974. Durante as décadas de 1970 e 1980 geriu o Botequim, ao Largo da Graça, onde se reunia grande parte da intelectualidade portuguesa. Com Maria Mendonça (1916-1997) e outras, participaria na fundação do Pátio do Funchal, ilha da Madeira, por onde passou várias vezes.
Como deputada, especialmente, ficou memorável o soneto ao deputado Morgado do PSD, sobre a interrupção da gravidez: Já que o coito - diz Morgado - /tem como fim cristalino,/preciso e imaculado/fazer menina ou menino;/e cada vez que o varão/sexual petisco manduca,/temos na procriação/prova de que houve truca-truca./Sendo pai só de um rebento,/lógica é a conclusão/de que o viril instrumento/só usou - parca ração! -/uma vez. E se a função/faz o órgão - diz o ditado -/consumada essa exceção,/ficou capado o Morgado.