Padre Martins Júnior de Cristina Carvalho, texto e Rafaela Rodrigues, ilustração, coleção Vidas (Des)Conhecidas, Cadmus, Funchal, março de 2025, ilha da Madeira.
Categorias
Descrição
Cristina Carvalho, texto e Rafaela Rodrigues, ilustração, Padre Martins Júnior
Coleção Vidas (Des)Conhecidas, Cadmus, Funchal, março de 2025, ilha da Madeira.
Na antiga vila de Machico nasceu José Martins Júnior, conhecido por Padre Martins. De criança astuta e sonhadora, ascendeu a jovem seminarista. Nos saraus, por si organizados, refinou e incutiu a graça da música, do teatro, do folclore e da poesia aos habitantes da Madeira e Porto Santo. Em África, desafiou a guerra com um vibrante acordeão ao peito. Privou com Zeca Afonso em tertúlias intelectuais que culminavam em cantorias. Na paróquia da Ribeira Seca, após o 25 de Abril, lutou pela criação da escola e pelo culto da universidade. A cantiga foi sempre a sua maior arma e, nos versos por si escritos, proferia sobre a esperança, o amor, as injustiças e a cultura de um povo trabalhador. Poeta, escritor, maestro, músico e grande impulsionador da riqueza cultural da região, contribui com um legado que opulenta a nossa identidade.
Cristina Carvalho nasceu, no século passado, na vila de Machico. Filha de professores, cresceu rodeada de livros e mesmo antes de saber ler, debruçava-se nas letras e lia histórias não escritas. Num diário, assentava desabafos de uma adolescente, trancados com uma pequena chave de metal. Os documentos não escritos fizeram parte da sua vida, na altura que pendeu para a arqueologia. O percurso académico passou pelo curso de Direito, porém findou em Ciências Documentais. Defende a educação para a leitura e incentiva os que a rodeiam a descobrirem o prazer de ler, assente em que os livros são janelas para o mundo.
Rafaela Rodrigues (Rio de Janeiro, 1990- ) é uma autora madeirense que cresceu em Machico, muito perto do mar. Desde pequena gosta de histórias. Estudou Design na Universidade da Madeira e é mestre em Ilustração pela Escola Superior Artística do Porto - Guimarães. Colabora com galerias como a Ó!Galeria Ilustração, a Ó!Galeria Cerâmica (Porto) e a Circus Network (Porto). Em 2018, foi selecionada para o Encontro Internacional de Ilustração de São João da Madeira (Aveiro). Em 2021 e 2023 foi selecionada para o prémio BIG, com ilustrações dos livros O Pescador e A Bordadeira, respetivamente.
José Martins Júnior (Machico, 16 nov. 1938-idem, 12 jun. 2025) foi ordenado padre a 15 de agosto de 1962 na igreja matriz de Machico, celebrando a sua primeira no mesmo dia. Nomeado a 22 de junho de 1969 como pároco da Ribeira Seca, tornar-se-ia, a partir do 25 de abril de 1974 uma das figuras incontornáveis da política regional. Em 1967, fez uma comissão de dois anos em Moçambique, regressando à Madeira em 1969. Foi então nomeado pároco da recém-criada paróquia da Ribeira Seca e coadjutor da igreja matriz de Machico. Em 1975, presidiu a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Machico e, em 1976, foi eleito deputado à Assembleia Legislativa Regional, como independente, nas listas da UDP, lugar que acabou por ceder a um operário da construção civil e do que a UDP se veio a arrepender. Em 1977 foi suspenso "a divinis" pelo bispo D. Francisco Santana (1924-1982), em princípio, sem processo canónico formado. Em 1980, recandidatou-se e foi eleito deputado e em 1982 assumiu a presidência da Junta de Freguesia de Machico. Em 1985, a igreja da Ribeira Seca foi tomada de assalto por 70 elementos da Polícia de Segurança Pública, então sob as ordens do comissário coronel Nuno Homem Costa, a pedido do governo e da diocese, já no episcopado do novo bispo do Funchal, D. Teodoro Faria (1930-2025). Nas eleições autárquicas de 1989, foi eleito presidente da Câmara Municipal de Machico, cargo para o qual foi reeleito, cumprindo o segundo mandato até 1998. Em 1995, entretanto, recebeu do presidente da República Dr. Mário Soares (1924-2017) as insígnias de comendador da Ordem de Mérito e em 1997 foi eleito deputado independente, nas listas do PS, à Assembleia Legislativa Regional, onde permaneceu até 2007, quando deu por terminada a atividade política. Em julho de 2009 ainda teve de responder no tribunal da comarca de Santa Cruz, num processo interposto pelo Governo Regional, pela acusação de "exercício ilegal de sacerdócio", mas de que viria a ser absolvido, só se resolvendo o diferendo com o novo bispo do Funchal, D. Nuno Brás da Silva Martins (1963-), que visita oficialmente a paróquia a 14 jul. 2019. O padre Martins Júnior continuou a exercer o sacerdócio "em consonância com o povo de Deus da Ribeira Seca", como costumava afirmar, numa igreja e residência erguidas pela população local, onde haveria de falecer aos 86 anos.