Máscara «Mwana Pwo», escultor Tshokwe da área de Saurimo, antes de 1950, Lunda, Angola.
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Descrição
Máscara «Mwana Pwo».
Máscara representativa do ideal de beleza feminino, utilizada por dançarinos profissionais em vários tipos de cerimónias.
Madeira esculpida e patinada, fibras, missangas e pigmentos, 19 cm
Esculpida por escultor de etnia Tshokwe, na área de Saurimo (Henrique de Carvalho), província da Lunda-Norte, provavelmente, antes de 1950 (c.)
Adquirida a Sanssango Tchiouga, a 30 de maio de 1970, dançarino Tshokwe da região de Lumeje, que vivia na sanzala do Soba Jamba (Luena), região de Benguela, Angola.
Catálogo de Cabral Moncada Leilões, leilão 222 da Colecção Eng. Elísio Romariz dos Santos Silva, Lisboa, 25 de Fevereiro de 2023 (lote 5), avaliado em 12.000 a 18.000 euros, vendida por 111.000 euros.
Proveniência do coleção Eng. Elísio Romariz dos Santos Silva, onde figura como Fig. 7 nas notas impressas "A Escultura Tribal dos Povos Banto" versão atualizada, de 1995, da obra com o título "A Escultura Negro-Africana Vista à Luz da Filosofia Banta", que o autor apresentou em 1971, para o XXII Jogos Florais da Câmara Municipal do Huambo (antiga Nova Lisboa) - Angola, pp. 13-14. Obra original disponível em http://memoriaafrica.ua.pt/Library/ShowImage.aspx?q=/bchuambo/bchuambo-026&p=10, consultada em 16 de março de 2023 às 11h16. Artigo número 4, mencionado no caderno de colecionador «Angola - Arte Negra, Relação e descrição das peças», nele identificado como «Máscara Muana Puo»: "Tatuagens: - na testa e no queixo: «Mupila»; - nas bochechas : «Masoji» (lágrimas), «Tubenga» (que não é reto); - no nariz: «Cangongo». - O septo nasal é perfurado para ser atravessado por um bastão (mutondu wa zulu), mutilação étnica que foi amplamente utilizado pelas populações do Nordeste de Angola, mas que já está em desuso. - Vários sinais em forma de cruz (variantes de «mipila»?) por todo o rosto. Na testa há duas tachas de latão. [...].
Comprada em 30 de maio. [19]70 a Sanssango Tchiouga, um dançarino Tshokwe que representava (?) na região de Lumeje. Este bailarino vivia na sanzala do Soba Jamba (Luena), a norte da linha férrea C. F. Benguela [...]. A máscara, o seu traje e dois chocalhos eram guardados numa boa caixa de madeira com tampa [...]. A compra da máscara foi muito difícil porque o bailarino dizia que a máscara tinha vindo da região de Saurimo (Henrique de Carvalho) e que em Lumeje não havia escultor que conseguisse fazer outra tão bonita e boa [...]. Por isso, depois de uma longa conversa, não só comigo, mas também com os amigos, a quem pedia conselhos, decidiu vendê-la [...] mas quando a entregou, as lágrimas vieram-lhe aos olhos, com a pena de se desfazer dela e de ter que ficar um tempo sem dançar até encontrar outra".
Segundo Marie Louise-Bastin “O nome da máscara é Pwo, “Mulher”, ou Mwana Pwo, “Menina”. Costumava representar uma mulher madura que provou sua fertilidade ao ter um filho, segundo os valores africanos. Possivelmente sob influência europeia, esta máscara passou depois representou uma menina e a esperança de ter muitos filhos. No baile de máscaras masculino, personificando o ancestral feminino, garante fertilidade aos espetadores durante sua apresentação. O bailarino tem seios falsos e usa um pano enrolado em volta do corpo, quadris e um cinto pesado em forma de meia-lua que balança para cima e para baixo conforme ele move as costas. No passado, esses gestos eram discretos e elegantes para ensinar boas maneiras às mulheres. Ao pedir uma máscara, o dançarino oferecia uma moeda de latão, o preço simbólico de uma noiva. Tratada como se fosse uma pessoa, a máscara era muitas vezes enterrada pela morte do dançarino, cuja profissão geralmente passava para o sobrinho. Um escultor profissional ('songi') era então encarregado de produzir uma nova máscara , um processo que anteriormente demorava várias semanas. Trabalhava no mato, tendo como modelo uma mulher cuja beleza admirava. Para isso, ele aproveitava todas as oportunidades para conhecê-la e observar suas feições, incluindo tatuagens, penteado e joias. Por esta razão, as máscaras femininas são frequentemente retratos; embora partilhem as características fundamentais de todas as esculturas dos Tshokwe, cada peça varia de forma subtil. O domínio técnico do escultor, aliado à inspiração provocada pelo modelo, explicam a grande variedade de expressão escultórica sempre encontrada na arte Tshokwe. O «mukishi wa Pwo» adorna diversos objetos, como tambores, sanzas e bainhas de facas. Quando uma imagem feminina funciona como contraponto a uma representação da máscara masculina «Cihongo», faz-se também referência ao «Pwo». Se o dono da máscara «Pwo» adoecesse, era costume consultar um adivinho para saber se era o espírito da máscara «Pwo» que estava a causar a doença. Se o bailarino já não tivesse máscara, encomendava uma nova e inaugurava-a perto da «cota», depois de a sua mulher ter sacrificado uma galinha sobre a cabeça da máscara. Ele então dançaria diante da aldeia reunida. Por fim, haveria uma refeição de comunhão entre o dançarino e sua esposa. O mesmo ritual seria realizado no caso de alguém que tivesse negligenciado a máscara ainda em uso. O dançarino guardava a máscara «Pwo» normalmente na cabana «mutenji» fora da aldeia ou escondida num cesto na sua própria casa.
Cf. BASTIN, Marie-Louise - "Escultura Tshokwe". Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1999. Para o mesmo tipo de máscara vd. REDINHA, José - "Álbum Etnográfico Portugal-Angola". Luanda: C.I.T.A, 1971, p. 91 (como "Muana-Mpuo"); JORDÁN, Manuel - "Os Tshokwe e Povos Aparentados". In "Na presença dos Espíritos - Arte Africana do Museu Nacional de Etnologia, Lisboa". Nova York: Museu de Arte Africana, Snoeck-Ducaju, 2000, pp. 100-102, cat. 73-75; BASTIN, Marie-Louise. "La escultura Tshokwe”. Arcueil: Alain et Françoise Chaffin, 1982, pp. 100-103, figs. 40-45 (como "Masque Pwo/Pwo"); o catálogo "Escultura Angolana - Memorial de Culturas". Lisboa: Museu Nacional de Etnologia - Sociedade Lisboa 94, 1994, pp. Companhia de Diamantes de Angola - Serviços Culturais Dundo - Lunda - Angola - Museu do Dundo, 1967, pp. 151 e 153, nºs 11-15 (como "Mukixi wa Pwó"); FELIX, Marc Leo. - "100 Povos do Zaire e sua escultura: o manual”. Bruxelas: Fundação de Pesquisa em História da Arte da Bacia do Zaire, 1987, p. 183, fig. 15; o catálogo do leilão realizado a 1 de fevereiro de 2023 na Lempertz "Art of Arfrica, the Pacific and the Americas". Bruxelas: Lempertz, 2023, lote 42; e https://www.metmuseum.org/art/collection/search/319264?t=Pwo&offset=0&rpp=40&pos=1, consultado em 14 de março de 2023 às 15h37.