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Arquipelago de Origem:
Estado Português da Índia
Data da Peça:
1516-00-00
Data de Publicação:
23/11/2023
Autor:
Tomé Pires e Francisco Rodrigues
Chegada ao Arquipélago:
2023-11-23
Proprietário da Peça:
Biblioteca da Assembleia Nacional de França
Proprietário da Imagem:
Universidade de Coimbra
Autor da Imagem:
Universidade de Coimbra
Suma Oriental de Tomé Pires, versão de Paris, 1516 (c.), Biblioteca da Assembleia Nacional de França, Paris, França

Categorias
    Descrição
    Suma Oriental de Tomé Pires
    (c.1485-1527)
    Somma oriemtall que trata do maar Roxo athee os chijs compilada por Thome Pirez
    Manuscrito sobre papel, 26,3 × 37,7 cm.
    Tomé Pires, Índia (?), c. 1515, versão copiada por Francisco Rodrigues, 1516 (c.).
    Biblioteca da Assembleia Nacional de França (Ms. 1248, E/D 19), Paris, França
    Pub. in Os Portugueses no Golfo, 1507–1650, uma história interligada, The Portuguese in the Gulf, 1507–1650, an interlinked history, catálogo de exposição na Feira do Livro do Emirado de Sharjah, Emirados Árabes Unidos, 1–12 novembro 2023, com coordenação científica de José Pedro Paiva e Roger Lee de Jesus, apresentação/introdução de Ahmed Bin Rakkad Al Ameri, presidente da Sharjah Book Authority, Centro de História de Sociedade e Cultura da Universidade de Coimbra, Imprensa da Universidade, março de 2023, nº 43, p. 121.

    Tomé Pires, que terá nascido na década de 1480, embarcou para a Índia em 1511, com o encargo de selecionar as drogas que de lá deveriam ser enviadas para Portugal. Depois de alguns meses de residência na cidade indiana de Cananor, Afonso de Albuquerque, que era o governador dos estabelecimentos portugueses no Oriente (mais tarde conhecidos como Estado da Índia), enviou-o para Malaca em meados de 1512, pouco tempo depois da conquista daquela cidade malaia pelos portugueses. Em princípios de 1515 Tomé Pires regressou à Índia, com planos para regressar definitivamente a Portugal. Durante o período de residência em Malaca, Tomé Pires iniciou a redação da Suma oriental, um extenso e bem informado tratado de geografia, onde descrevia com enorme riqueza de pormenores um grande número de regiões e de povos da Ásia marítima. Dotado de um singular poder de observação, de uma curiosidade insaciável e de evidentes capacidades inquiridoras, o boticário português conseguira reunir em escassos anos um prodigioso volume de notícias sobre muitos temas orientais até então pouco ou nada conhecidos dos europeus. Tomé Pires, de forma sistemática, e começando no Mar Vermelho, vai descrevendo sucessivamente toda a Ásia marítima até ao arquipélago do Japão, destacando em cada região os principais portos, as mercadorias que ali eram intercambiadas, os preços cobrados, as moedas, pesos e medidas utilizadas, os direitos alfandegários vigentes, os câmbios praticados, as rotas seguidas e os calendários de viagem praticados. Paralelamente, a Suma Oriental era enriquecida com outros dados direta ou indiretamente relacionadas com as realidades mercantis. Assim, a propósito de numerosas regiões abordadas, o boticário fornecia informações complementares sobre sistemas políticos, crenças da população, potencialidades bélicas, embarcações disponíveis localmente, existência e estatuto de comunidades estrangeiras, bem como determinadas particularidades linguísticas.
    A Suma oriental incluía uma descrição da costa da Arábia e do Golfo, baseada decerto no testemunho de informadores portugueses que haviam visitado aquelas regiões asiáticas nos primeiros anos do século XVI. Tomé Pires revelava-se extremamente bem informado para alguém que nunca tinha visitado aquelas áreas, o que confirma as suas capacidades de recolha e organização de informação estratégica. Especial destaque merecem as suas notícias sobre o reino de Ormuz, que estava centrado na ilha do mesmo nome, e sobre as suas dispersas possessões territoriais em ambas as margens do Golfo, que incluíam nomeadamente as ilhas de Bahrain.
    Tomé Pires haveria de ser o primeiro embaixador português enviado a Pequim, pois, quando em 1516 se preparava para regressar a Portugal, foi destacado pelo governador da Índia, então Lopo Soares de Albergaria, para chefiar uma missão diplomática à China. A embaixada portuguesa desembarcou em Cantão em 1517, mas, depois de uma rápida visita à capital imperial em princípios de 1521, os seus membros acabariam por ser detidos pelas autoridades chinesas. Anos mais tarde, o viajante e escritor português Fernão Mendes Pinto, na sua Peregrinaçam, postumamente publicada em Lisboa em 1614, afirmaria ter encontrado durante as suas alegadas andanças pelo interior da China uma cristã chinesa chamada Inês de Leiria, que seria nada mais nada menos que a filha de Tomé Pires. O embaixador Tomé Pires veio a desaparecer em circunstâncias ainda não esclarecidas, numa prisão de Cantão, por volta de 1527. Entretanto, o manuscrito original da Suma oriental seguiu para Portugal, onde terá sido analisado com o máximo de sigilo nos meios próximos da Coroa portuguesa, para posteriormente levar sumiço. Atualmente conhecem-se apenas duas cópias manuscritas da obra, uma completa conservada em Paris, e outra incompleta, guardada em Lisboa. O manuscrito parisino, intitulado «Somma oriemtall que trata do maar Roxo athee os chijs compilada por Thome Pirez», terá sido copiado por volta de 1516 pelo piloto português Francisco Rodrigues, a partir da versão original redigida pelo próprio Tomé Pires. Por caminhos que se desconhecem, acabou por ser depositado na Bibliothèque de l’Assemblée nationale (Ms. 1248, E/D 19), em Paris, onde hoje se encontra. Sabendo-se que esta biblioteca francesa foi constituída na sequência da revolução de 1789 com fundos bibliográficos confiscados a aristocratas franceses, será difícil determinar a exata origem do códice português.
    O manuscrito lisboeta, que tem por título «Soma horiemtall que trata do mar Roxo ate os chims», não contém nome de autor e terá sido copiado em Lisboa por volta de 1526, conservando-se hoje na Biblioteca Nacional de Portugal (Cód. 299/2). Mas contém apenas uma versão parcial da Suma Oriental, com cerca de um terço da obra original, pois faltam-lhe as secções dedicadas a Malaca e à Insulíndia. Um emissário do erudito veneziano Giovanni Battista Ramusio, que visitou Lisboa entre 1525 e 1528, conseguiu adquirir uma cópia da Suma Oriental muito semelhante à do manuscrito lisbonense. E Ramusio veio a publicar uma versão italiana, anónima, do texto obtido em Lisboa, no primeiro volume da sua célebre coletânea de viagens Navigationi et Viaggi, que foi impresso em Veneza em 1550.
    A obra de Tomé Pires constitui uma fonte histórica de extraordinário valor a múltiplos níveis. Em primeiro lugar, como obra revolucionária no contexto da história da geografia europeia, pois impôs um momento de total rutura no processo de conhecimento europeu de muitas regiões da Ásia e mormente das suas partes mais orientais. Depois, como documento insubstituível na construção da história asiática, já que apresenta um circunstanciado panorama político e económico de vastas regiões orientais. Em terceiro lugar, a Suma Oriental vale como vastíssimo repositório de informações etnográficas, muitas delas inéditas e obtidas em primeira mão, sobre muitos povos orientais. Finalmente, como testemunho de um momento privilegiado na história das relações da Europa com a Ásia, pois a obra do boticário português apresentava o último grande retrato da Ásia marítima antes da chegada em força dos europeus. Existe hoje uma edição em língua inglesa da Suma oriental, que foi publicada em Londres em 1944 pela Hakluyt Society, sob a responsabilidade de Armando Cortesão, o historiador que redescobriu o manuscrito parisino (The Suma Oriental of Tomé Pires and the Book of Francisco Rodrigues). Estão também disponíveis edições críticas recentes de ambos os manuscritos, publicadas sobre a responsabilidade de Rui Manuel Loureiro em Macau, em 1996 (O Manuscrito de Lisboa da “Suma Oriental” de Tomé Pires) e em Lisboa em 2017 (Suma Oriental). [Rui Manuel Loureiro, pp. 119-120]